UMA PSICOLOGIA NÃO REDUCIONISTA.

Material proveniente de: https://theinvisiblecollege.com.br

Compreender o processo de socialização é fundamental para toda a teoria sociológica, clássica ou contemporânea. E quanto se trata de abrir a caixa preta do processo de socialização a sociologia estabelece um profícuo diálogo com a psicologia.

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Falamos aqui em sociologia e psicologia de forma genérica, como campo do saber científico. Mas é claro que existem diversas sociologias e psicologias, fato que torna muito desafiador e também instigante pensar e fazer pesquisa na interface entre esses dois campos de conhecimento.

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Embora na sociologia clássica o diálogo com a psicologia não seja tão explícito ele está presente em todos os autores. Basta lembrarmos da figura de Gabriel Tarde que era sociólogo e psicólogo e suas reflexões sobre o efeito da imitação na configuração das normas e expectativas sociais, propondo uma metodologia e uma definição de sociologia que integrava as duas disciplinas. Mesmo no pensamento de Émile Durkheim que discordou abertamente de Gabriel Tarde e tinha como objetivo delimitar e diferenciar os objetos de estudo da sociologia e da psicologia podemos encontrar reflexões que poderiam ser classificadas como “psicológicas”.

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O fato é que na sociologia clássica as diferentes abordagens no que se refere à relação do todo social e suas partes individuais levou a um dualismo entre indivíduo e sociedade que acaba tratando de forma reducionista e/ou de forma absoluta algum aspecto da vida social em detrimento de outros.

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Toda a sociologia contemporânea pode ser compreendida como um esforço de superar esse dualismo. Por exemplo, a teoria da estruturação de Anthony Giddens, que atualiza a teoria da ação social num profícuo diálogo e antítese com diferentes vertentes da psicologia e da fenomenologia. Assim como também atualiza a teoria da estrutura social procurando demonstrar que a formação de estruturas (compreendidas como regras e recursos aplicados de forma recursiva na reprodução da vida social) está necessariamente entrelaçada com a formação dos agentes.

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O esforço de Giddens de superar esse dualismo na sociologia clássica tem o mesmo sentido do empreendimento teórico de outros sociólogos contemporâneos. O conceito de Figuração em Norbert Elias, o conceito de Habitus e Campo em Pierre Bourdieu, só pra citar alguns exemplos.

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Quem tem trazido uma nova contribuição nesse sentido é o sociólogo cristão Christian Smith. Ele tem uma série de livros publicados no qual propõe substituir a noção de indivíduo ou agente pela noção de “pessoa”. Embora isso implique num grande desafio epistemológico porque traz para o primeiro plano do debate a questão acerca do que é o ser humano, Smith defende que esta abordagem suscita mais ganhos do que dificuldades e contribui para uma maior clareza e realismo ao estudarmos o comportamento social e humano.

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Uma abordagem que leva a sério o debate sobre a imagem de ser humano na teoria social e não simplesmente assume uma ideologia reducionista de antemão sobre o que significa ser humano possui muitas vantagens. Primeiro, ao romper com uma espécie de esquizofrenia entre os objetos de estudo da sociologia, da psicologia, das teorias educacionais, das teorias da administração, ou mesmo das noções de ser humano implícitas em técnicas de coaching.

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Apesar dos consideráveis avanços na sociologia contemporânea ainda persistem muitas lacunas e diversos reducionismos na compreensão de como os diversos aspectos da vida cultural, política, econômica, estética, ética, moral e religiosa estão interconectados e afetam a nossa vida. Como argumenta Christian Smith em seu livro ‘o que é uma pessoa?’, muitos retratos do ser humano apresentados na teoria social contemporânea (como seres governados por influências sociais externas; competindo por recursos materiais; manipulando as representações públicas de si; lutando contra rivais por poder e status; racionalizando suas ações com justificações discursivas a posteriori, dentre outras) não servem de embasamento para valores e crenças que muitos cientistas e a maioria dos cidadãos no mundo globalizado de hoje declaram adesão, como a dignidade e igualdade entre todas as pessoas, os direitos humanos e a justiça social. Isso resulta numa tensão e até mesmo numa espécie de esquizofrenia intelectual entre os objetos de estudos das ciências humanas e a experiência pré-teórica de ser humano.

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Para irmos além desses reducionismos precisamos de uma compreensão que faça justiça ao ser humano real, e não apenas de abstrações incompletas da pessoa humana. A Antropologia Filosófica de Herman Dooyeweerd, enraizada numa boa exegese das Escrituras Sagradas e numa excelente hermenêutica da teologia cristã segundo a tradição neocalvinista reformada, é muito profícua para nos auxiliar na superação desse dualismo presente na teoria sociológica e para pensarmos uma psicologia não reducionista.

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Duas proposições de Dooyeweerd sobre a noção de ser humano são especialmente importantes nesse sentido. Primeiro, a ideia de um coração (supratemporal) como o centro espiritual do ser humano. Conforme essa tese a essência do que é ser humano não pode ser reduzido a nenhum aspecto temporal, seja o aspecto físico, biótico, sensitivo, social, histórico, analítico, político, econômico, etc. O ser humano transcende todos esses aspectos e não pode ser definido exclusivamente por nenhum deles.

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A linguagem, a lógica, o raciocínio complexo, a inteligência, o pensamento criativo, a cultura, são algumas das características que distinguem os seres humanos dos demais animais. Contudo, o ser humano não pode ser definido tomando como referente apenas uma dessas características. Toda definição da pessoa humana como animal racional, animal político, homus economicus, etc, trata-se de uma absolutização de apenas um aspecto da vida ativa e cultural e, portanto, de uma deformação da imagem real e verdadeira da vida humana.

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A segunda proposição de Dooyeweerd de extrema importância acerca da pessoa humana é a definição do homem como uma “totalidade estrutural encáptica”. Encápsis significa entrelaçamento. Com esse termo proposto pelo filósofo cristão nas suas 32 teses sobre o homem e desenvolvido em obras posteriores, Dooyeweerd substitui a relação entre o todo e as suas partes pela noção de relação encáptica entre os diversos aspectos da realidade. Com essa mudança de paradigma, adotando uma ontologia cristã trinitária, é possível compreender de forma harmônica a individualidade e particularidade de cada pessoa ao mesmo tempo que se reconhece a sua natureza social.

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Mais do que isso, essa antropologia radicalmente bíblica de Herman Dooyeweerd nos auxilia a pensar uma abordagem psicológica não reducionista e coerente com a revelação de Deus nas Escrituras sobre o ser humano. Compreendendo o ser humano como uma unidade indivisível de corpo e alma, no qual encontram-se hierarquicamente entrelaçados quatro subestruturas: físico-química, biótica, sensitiva ou psíquica; e a ativa/espiritiva/cultural.

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No livro ‘Milagres’ C. S Lewis apresenta numa linguagem simples uma definição de ser humano que é coerente com a antropologia filosófica de Herman Dooyeweerd. Nas palavras de Lewis o ser humano “é uma torre na qual o acesso aos diferentes andares é muito difícil de um para o outro, mas todos podem ser alcançados do último andar”.

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Essa analogia apresentada por Lewis refere-se a um modelo de personalidade ou self estruturado, que reconhece que tudo aquilo que é imaterial na pessoa humana (paixões, desejos, emoções, memória) está entrelaçado com as estruturas físico-químicas, bióticas e sensitivas, isto é, está corporificado. Mas não apenas está estruturado, está estruturado de forma hierarquizada. O aspecto volitivo ou espiritivo, a consciência humana e a vontade, não são meros epifenômenos! São sim aspectos imateriais reais da natureza humana e responsáveis por controlar o comportamento e as ações. Isso implica que as pessoas são livres e responsáveis por suas ações e motivações.

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Essa imagem que Lewis utiliza para falar da natureza humana vale para todas as pessoas. Para quem é regenerado e para quem ainda não nasceu de novo em Cristo Jesus. Ou seja, todo ser humano deve ser visto a partir do ponto de vista do “homem total”, como ser espiritivo-cultural-psíquico-somático.

Portanto, na linguagem bíblica e cristã, quando falamos da diferença que existe entre o homem espiritual e o homem natural, queremos dizer que aquele que é espiritual é a pessoa regenerada que adora a Deus. Enquanto o homem natural é o “homem-espírito” ou “homem total” que está em inimizade contra Deus. Esse é o caso, por exemplo, quando o apóstolo Paulo na epístola aos Romanos no capítulo 8, versos 1-17, descreve o que significa a vida pelo Espírito.

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Essa concepção de pessoa humana não reducionista não é exclusividade de pensadores cristãos. No campo da psicologia autores de diversas matizes e abordagens teórico-metodológicas tem advogado pela superação do modelo biomédico em favor de um modelo biopsicossocial, somando estudos e achados empíricos que apontam para as vantagens de uma visão mais holística da pessoa humana.

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De forma resumida podemos dizer que uma concepção não-reducionista da psicologia com relação ao estudo de aspectos cognitivo-comportamentais do ser humano deve levar em consideração fatores pessoais e situacionais (ambientais). E dentre os fatores pessoais deve-se analisar a influência do fator biótico, do fator perceptivo, do fator sensitivo e do fator espiritivo. E que esses quatro fatores relacionados ao fator pessoal precisam ainda ser compreendidos em três dimensões ou eixos, que são os fatores constituintes (genéticos), fatores operacionais (hábitos), e fatores motivacionais.

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Isso por si só já mostra o grande erro de uma abordagem que assume alguma espécie de determinismo behaviorista. Contudo, a grande contribuição da antropologia filosófica de Herman Dooyeweerd consiste em nos ajudar a entender que o coração, como centro religioso da pessoa, influencia decisivamente a vontade e a consciência. E como núcleo fundamental repercute nas demais estruturas da pessoa humana como se fosse uma série de círculos concêntricos.

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Ainda que não seja possível acessar ou observar diretamente a inclinação do coração por meio de instrumentos psicológicos isso precisa e deve ser levado em consideração na compreensão do comportamento e da conduta humana. Para isso precisamos da Palavra de Deus, único instrumento capaz de julgar e discernir os pensamentos e intenções do coração (Hb 4.12-13).

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