Os três inimigos, as três portas e as armas da vida cristã

Como reconhecer a tentação e permanecer firme em Cristo.

Quem começa a seguir Jesus logo percebe que a conversão não elimina todas as lutas. Há desejos que precisam ser corrigidos, pressões que precisam ser enfrentadas e pensamentos que precisam ser submetidos à verdade de Deus.

Isso não significa que a conversão foi falsa. Significa que começou uma caminhada de discipulado: aprender a viver sob o senhorio de Jesus.

A Bíblia apresenta três frentes dessa batalha: a carne, o mundo e o maligno. Efésios 2.1–3 reúne essas realidades ao descrever a antiga vida de pecado: seguíamos o curso deste mundo, estávamos sujeitos à influência do espírito da desobediência e vivíamos segundo as inclinações da carne.

Esses inimigos se relacionam, mas não são a mesma coisa. Conhecer suas diferenças nos ajuda a assumir nossa responsabilidade e a depender de Deus.

1. A carne: o impostor que quer ocupar o governo da vida

Quando fala da carne em oposição ao Espírito, a Bíblia não está dizendo que o corpo é mau. Deus criou o ser humano e sua existência corporal; o corpo do cristão deve glorificar a Deus (Gênesis 1.27–31; 1Coríntios 6.19–20).

Nesse contexto, “carne” descreve nossa inclinação pecaminosa: a disposição de viver independentemente de Deus, colocando nossos desejos acima de sua vontade.

Podemos chamá-la de “o impostor” como uma ilustração. Ela tenta assumir uma autoridade que não lhe pertence e costuma falar com a nossa própria voz:

“Eu mereço.” “Ninguém precisa saber.” “Não vou perdoar.” “O importante é satisfazer minha vontade.”

A carne não aparece apenas na sensualidade. Também se manifesta em inveja, rivalidade, ira e divisões, como mostra Gálatas 5.19–21. Podemos identificá-la tanto em um desejo escondido quanto na necessidade de vencer uma discussão ou receber reconhecimento.

Entretanto, nem toda expressão do “eu” é pecado. Ter personalidade, reconhecer necessidades e cuidar de si não é carnalidade. O problema é o eu que se coloca no centro e resiste ao governo de Deus.

Tiago 1.14–15 ensina que nossos próprios desejos podem nos atrair e conduzir ao pecado. Portanto, não podemos responsabilizar o diabo por tudo que escolhemos fazer.

Jesus nos chama a negar a nós mesmos, tomar nossa cruz e segui-lo (Lucas 9.23). Negar a si mesmo significa renunciar à pretensão de ser o senhor da própria vida. É aprender a dizer: “Meu desejo é real, mas a vontade de Deus deve governar minha decisão.”

2. O mundo: o sistema que tenta normalizar a desobediência

A palavra “mundo” tem sentidos diferentes na Bíblia. Perceber isso evita um erro: pensar que seguir Jesus exige desprezar a criação ou odiar as pessoas.

O mundo como criação é a realidade criada por Deus. A terra lhe pertence (Salmo 24.1), e sua criação foi declarada boa (Gênesis 1.31). A natureza, o trabalho e os dons humanos podem ser recebidos com gratidão e usados para sua glória.

O mundo como humanidade aparece em João 3.16: Deus ama as pessoas e enviou seu Filho para salvá-las.

O mundo como sistema, porém, é a organização de valores, desejos e práticas que funciona em oposição a Deus. É esse mundo que não devemos amar, segundo 1João 2.15–17.

Esse sistema nos ensina a medir a vida pelo que possuímos, pela aparência que projetamos e pelo poder que exercemos. Faz a mentira parecer esperteza, a exploração parecer sucesso e a infidelidade parecer liberdade.

Por isso, Romanos 12.2 nos chama a não assumir a forma deste mundo, mas a ser transformados pela renovação da mente.

O cristão continua vivendo entre as pessoas, trabalhando, estudando e participando da sociedade. Jesus pediu ao Pai que seus discípulos fossem guardados do mal, não retirados do mundo (João 17.15–18).

Nossa missão é amar as pessoas sem adotar os valores que as afastam de Deus.

3. O maligno e seus demônios: os adversários que enganam

A Bíblia apresenta o diabo como um adversário real. Ele tenta Jesus em Mateus 4.1–11, é chamado de mentiroso em João 8.44 e procura devorar, segundo 1Pedro 5.8.

Efésios 6.11–12 também ensina que enfrentamos forças espirituais do mal. Nossa batalha não se reduz ao que vemos.

Mas o diabo não é igual a Deus em poder. Ele é uma criatura, não é soberano e não merece ocupar o centro de nossa atenção. Cristo triunfou sobre os poderes do mal (Colossenses 2.15), e aquele que está em nós é maior do que aquele que está no mundo (1João 4.4).

O maligno trabalha por meio do engano, da tentação e da acusação. Pode sugerir que Deus está privando você de algo essencial, que a desobediência não terá consequências ou que, depois de uma queda, não existe caminho de volta.

É necessário discernimento. A Bíblia não autoriza atribuir toda doença, sofrimento emocional ou dificuldade cotidiana a demônios. Há também fragilidades humanas, consequências de escolhas e sofrimentos próprios de um mundo marcado pelo pecado.

A orientação é clara: submeter-se a Deus e resistir ao diabo (Tiago 4.7). Resistência espiritual começa com uma vida entregue ao Senhor.

As três portas: por onde a tentação procura entrar

João escreve:

“porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo. Ora, o mundo passa, bem como a sua concupiscência; aquele, porém, que faz a vontade de Deus permanece eternamente.”

1João 2.16–17 — ARA

“Concupiscência” significa, aqui, desejo desordenado: um desejo que passa a governar a pessoa e a conduzi-la contra a vontade de Deus.

Podemos chamar essas três áreas de “portas” da tentação. A expressão é uma ilustração para o discipulado, não o nome de três mecanismos espirituais que o texto define. Também não existe uma correspondência exclusiva entre cada inimigo e cada porta: a carne, o mundo e o maligno podem agir sobre as mesmas áreas.

A concupiscência da carne: “Quero satisfazer meu desejo agora”

Essa porta se abre quando uma vontade exige satisfação sem se submeter a Deus.

A fome é legítima. A sexualidade, dentro do propósito de Deus, é um dom. Descansar é necessário. Mas um desejo legítimo pode se tornar ocasião de pecado quando passa a justificar qualquer meio para ser satisfeito.

Em Mateus 4.1–4, Jesus está com fome depois de jejuar. O tentador propõe que ele transforme pedras em pães.

O problema não está no pão nem na fome. Está em acolher a proposta do tentador e agir fora da obediência ao Pai. Jesus responde com Deuteronômio 8.3, afirmando que a vida depende da palavra de Deus.

A necessidade não autoriza a desobediência.

Essa verdade nos alcança quando pensamos: “Estou sozinho, então posso entrar em qualquer relacionamento”; “Estou irritado, então posso ferir alguém”; “Preciso de dinheiro, então posso mentir”.

O discípulo aprende a reconhecer sua necessidade e apresentá-la a Deus sem transformá-la em desculpa para pecar.

A concupiscência dos olhos: “Preciso ter aquilo”

Essa porta envolve a cobiça despertada pelo que vemos: bens, aparência, posição, experiências ou a vida que imaginamos que o outro possui.

Olhar algo bonito não é pecado. Admirar e desejar crescer também não. O perigo aparece quando aquilo que vemos se torna uma promessa de felicidade sem a qual julgamos impossível viver.

Em Mateus 4.8–10, o diabo mostra a Jesus os reinos do mundo e sua glória. Oferece uma conquista mediante adoração.

A proposta une o encanto do que é mostrado à exigência de infidelidade. Jesus responde com Deuteronômio 6.13: somente Deus deve receber adoração e serviço.

Nenhuma conquista vale o preço de entregar a outro aquilo que pertence a Deus.

Essa tentação aparece em uma oportunidade de trabalho que exige desonestidade, em um relacionamento que pede o abandono da fé ou no consumo que alimenta comparação e insatisfação.

A pergunta é: “Para conseguir o que desejo, o que estou disposto a entregar?”

A soberba da vida: “Preciso provar quem sou”

A soberba da vida envolve orgulho e autossuficiência: fazer da posição, dos recursos ou das realizações uma razão para exaltar a si mesmo.

Ela também pode vestir roupas religiosas. Podemos desejar que Deus confirme nossa importância e usar a fé para obter reconhecimento.

Em Mateus 4.5–7, o diabo leva Jesus ao ponto mais alto do templo e sugere que ele se lance dali, citando o Salmo 91 como justificativa para esperar proteção.

Jesus responde com Deuteronômio 6.16: não devemos colocar Deus à prova.

Confiar no Pai é diferente de criar uma situação imprudente e exigir que ele intervenha. A fé obedece; a presunção exige que Deus sustente nossos próprios planos.

Esse episódio também nos alerta: uma passagem bíblica pode ser citada de maneira distorcida. Precisamos compreender a Escritura em seu contexto e à luz do conjunto de seu ensino.

Esses paralelos ajudam a compreender as tentações, mas não formam uma divisão rígida. A oferta dos reinos também envolve poder e orgulho; a proposta no templo também envolve identidade e confiança. As tentações frequentemente misturam diferentes desejos.

As armas que Deus colocou à nossa disposição

A vitória cristã começa na graça de Deus. Jesus venceu a tentação, morreu por nossos pecados e ressuscitou. Ele nos recebe, intercede por nós e nos capacita a obedecer (Hebreus 4.15–16; Romanos 6.4–14).

Não lutamos para comprar o amor de Deus. Lutamos porque fomos alcançados por esse amor.

1. A Palavra: conhecer a verdade e obedecer a ela

Nas três tentações, Jesus responde com a Escritura. Efésios 6.17 apresenta a Palavra de Deus como a espada do Espírito.

Isso envolve mais do que repetir versículos. Precisamos compreender a verdade e permitir que ela governe nossas escolhas.

Quando vier a tentação, pergunte: “O que Deus ensina sobre isso?” Leia a Bíblia regularmente, aprenda seu contexto e guarde no coração aquilo que você precisa praticar (Salmo 119.11).

2. O Espírito Santo: poder para uma nova maneira de viver

Gálatas 5.16 ensina que devemos andar no Espírito para não satisfazer os desejos da carne. Romanos 8.13 afirma que é pelo Espírito que fazemos morrer as práticas pecaminosas.

Andar no Espírito é viver em dependência de Deus, acolhendo sua direção e obedecendo à sua Palavra. Seu fruto inclui amor, mansidão e domínio próprio (Gálatas 5.22–23).

O Espírito não apenas nos ajuda a recusar o pecado; ele forma em nós desejos e atitudes que agradam ao Pai.

3. A oração e a vigilância: reconhecer nossa dependência

Jesus orienta seus discípulos a vigiar e orar para não entrarem em tentação (Mateus 26.41). Efésios 6.18 também une a oração à batalha espiritual.

Orar é apresentar a Deus nossa fraqueza. Vigiar é reconhecer as circunstâncias em que costumamos cair.

Se determinado conteúdo alimenta sua cobiça, limite o acesso. Se uma conversa conduz à infidelidade, encerre-a. Se o cansaço aumenta sua irritação, cuide também de seu descanso.

O jejum pode acompanhar essa busca por Deus (Mateus 6.16–18), sem ser tratado como uma técnica para obrigá-lo a agir.

4. A armadura de Deus: uma vida sustentada pelo evangelho

Efésios 6.10–18 apresenta verdade, justiça, evangelho da paz, fé, salvação, Palavra e oração.

A armadura não é uma fórmula que funciona apenas por ser recitada. Ela descreve recursos de Deus que devem ser acolhidos e vividos.

A verdade enfrenta a mentira. A justiça orienta nossa conduta. A fé nos mantém confiantes em Deus diante dos ataques. A salvação sustenta nossa esperança. O evangelho da paz firma nossos passos e nos prepara para testemunhar de Cristo.

5. A comunhão: caminhar acompanhado

Hebreus 3.13 mostra que a exortação mútua nos protege do engano do pecado. Tiago 5.16 nos orienta à confissão e à oração uns pelos outros.

Tenha irmãos maduros com quem possa conversar honestamente. Participe da igreja e receba discipulado. Quando tudo precisa ser escondido, algo provavelmente precisa ser trazido à luz.

Deus usa a comunidade para encorajar, corrigir e restaurar.

6. A obediência prática: resistir, fugir e cultivar o bem

A Bíblia manda resistir ao diabo (Tiago 4.7), fugir da imoralidade sexual (1Coríntios 6.18) e abandonar práticas pecaminosas, substituindo-as por atitudes novas (Efésios 4.22–32).

Nem toda tentação deve ser enfrentada permanecendo perto dela. Há situações das quais precisamos sair.

Quem abandona a mentira deve cultivar a verdade. Quem abandona a amargura deve aprender a perdoar. Quem luta contra a cobiça deve exercitar gratidão e generosidade.

A vida cristã cresce quando a verdade se transforma em decisões concretas.

E quando eu cair?

A Bíblia nos chama à santidade, mas também ensina o caminho da restauração. Devemos confessar nossos pecados, confiando na fidelidade de Deus para nos perdoar e purificar (1João 1.9). Temos em Jesus Cristo nosso Advogado junto ao Pai (1João 2.1).

Isso não torna o pecado pequeno. Mostra que a graça de Cristo é suficiente para receber quem se arrepende.

Depois de uma queda, pare de justificar o erro. Confesse, abandone o pecado, procure ajuda e repare o que for possível. Volte a caminhar em obediência.

A diferença entre arrependimento e simples remorso está na direção que tomamos depois de reconhecer o pecado.

Uma vida que permanece

A carne procura colocar nossos desejos no governo. O sistema mundano tenta ensinar o que devemos desejar e admirar. O maligno procura nos enganar e afastar de Deus.

Mas não estamos desamparados. Temos um Salvador vitorioso, a presença do Espírito, a verdade da Palavra e uma comunidade com quem caminhar.

João encerra sua advertência lembrando que o mundo e seus desejos passam, mas quem faz a vontade de Deus permanece eternamente (1João 2.17).

Hoje, examine seu coração: que desejo precisa ser submetido ao Pai? Que influência precisa perder espaço? Que passo de obediência precisa ser dado?

Leve essas respostas a Jesus. A maturidade cristã cresce quando aprendemos, dia após dia, a confiar nele e a fazer sua vontade.

O Discipulado Cristão


Vivemos em uma época em que todos estão sendo discipulados por alguma coisa ou por alguém. Talvez nunca tenha sido tão evidente que a influência molda o ser humano. Pessoas, ideologias, entretenimento, redes sociais, meios de comunicação, ambientes profissionais, amizades e até mesmo a cultura ao nosso redor trabalham constantemente na formação do nosso modo de pensar, sentir e agir.

O discipulado é, talvez, o mecanismo mais intenso e eficaz para a formação do caráter de uma pessoa. Ele não transmite apenas informações; transmite valores, convicções, hábitos e uma maneira de viver.

Enquanto escrevo estas linhas, inúmeros processos de discipulado acontecem ao mesmo tempo. Jovens aprendem filosofias nos bancos das escolas; amigos influenciam uns aos outros em suas conversas; homens e mulheres têm sua visão de mundo moldada pelos programas de televisão, pelas notícias, pelos filmes, pelas músicas e, hoje mais do que nunca, pelas redes sociais. Muitos acabam absorvendo conceitos completamente distantes da vontade de Deus, tornando-se discípulos de uma cultura que valoriza o ego, o prazer imediato, o sucesso a qualquer custo e a independência do Criador.

Em outras palavras, todos estão sendo discipulados.

A grande questão não é se alguém está sendo discipulado, mas por quem e para quê.

É justamente nesse contexto que surge o discipulado cristão, o único discipulado capaz de restaurar o ser humano à plenitude para a qual Deus o criou.

O modelo de Jesus

O discipulado cristão nasceu no próprio coração de Cristo. Ao iniciar seu ministério terreno, Jesus sabia que sua missão não terminaria na cruz nem em sua ascensão aos céus. Era necessário que sua vida continuasse sendo reproduzida em outras vidas.

Por isso, mais do que reunir multidões para ouvi-lo, Jesus escolheu homens comuns para caminharem ao seu lado. Eles observariam sua vida, seu caráter, suas palavras, suas decisões, sua compaixão, sua firmeza, sua oração e sua completa dependência do Pai.

Jesus não apenas ensinava em sermões. Ele ensinava vivendo.

Durante aproximadamente três anos, aqueles homens caminharam diariamente ao seu lado. Comeram com Ele. Dormiram próximos dEle. Viajaram com Ele. Presenciaram milagres. Ouviram suas correções. Receberam encorajamento. Foram confrontados em seus erros. Aprenderam a servir, a amar, a perdoar e a depender totalmente de Deus.

Mais do que transmitir conhecimento, Jesus transmitia vida.

Seu objetivo era que tudo aquilo que havia recebido do Pai fosse reproduzido na vida daqueles discípulos: seu caráter santo, sua intimidade com Deus, sua autoridade espiritual, sua compaixão pelas pessoas, sua fidelidade às Escrituras e sua completa submissão à vontade do Pai.

Ao final daquele processo, aqueles homens já não eram apenas seguidores de Jesus. Haviam se tornado parecidos com Ele.

A Grande Comissão

Foi então que receberam a Grande Comissão:

“Portanto, ide, fazei discípulos de todas as nações…” (Mateus 28.19-20).

Perceba que Jesus não ordenou apenas que pregássemos. Ele ordenou que fizéssemos discípulos.

Existe uma enorme diferença entre converter pessoas e discipulá-las.

Converter é o início da caminhada.

Discipular é acompanhar alguém até que Cristo seja formado nele.

Esse chamado também aparece em Lucas 9.23, quando Jesus declara:

“Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me.”

Antes de discipular, seja discípulo

Ninguém pode conduzir outra pessoa a uma vida de discipulado sem antes viver essa experiência.

Antes de discipular alguém, preciso ser discípulo.

Antes de ensinar, preciso aprender.

Antes de corrigir, preciso permitir que Deus corrija meu próprio coração.

Antes de formar pessoas, preciso continuar sendo formado por Cristo.

Foi exatamente isso que aconteceu com Paulo. Depois de sua conversão, Deus trabalhou profundamente seu orgulho, sua religiosidade, seus conceitos e sua maneira de enxergar o Reino. Enquanto servia à igreja, ele próprio continuava sendo moldado pelo Espírito Santo.

Assim também acontece conosco.

Enquanto discipulamos outras pessoas, Deus continua nos discipulando.

Muitas vezes, o Senhor utiliza exatamente aqueles que estamos ensinando para revelar áreas de nossa própria vida que ainda precisam ser transformadas.

O discipulado, portanto, não é um relacionamento entre um mestre perfeito e um aluno imperfeito.

É a caminhada de dois pecadores sendo aperfeiçoados por Cristo.

Discipulado é vida compartilhada

Discipular é investir tempo.

É abrir espaço na agenda.

É compartilhar refeições.

É caminhar junto.

É ouvir.

É aconselhar.

É corrigir com amor.

É celebrar conquistas.

É chorar junto nas derrotas.

É ensinar pela Palavra, mas principalmente pelo exemplo.

As pessoas raramente reproduzem apenas aquilo que ensinamos.

Elas reproduzem aquilo que somos.

Por isso, o discipulado não acontece apenas em uma sala de aula, em um curso ou durante um estudo bíblico.

Ele acontece na convivência.

Jesus discipulou andando.

Discipulou servindo.

Discipulou trabalhando.

Discipulou descansando.

Discipulou orando.

Discipulou enfrentando crises.

Discipulou amando pessoas difíceis.

Seu método foi a vida compartilhada.

Esse continua sendo o modelo da Igreja.

O alvo: formar seguidores de Cristo

O verdadeiro discipulado não produz admiradores do discipulador.

Produz seguidores de Cristo.

O alvo nunca é criar dependência de pessoas, mas conduzir homens e mulheres a uma maturidade espiritual em que aprendam a ouvir a voz do Senhor, amar sua Palavra, servir sua Igreja e fazer novos discípulos.

Assim, o Reino de Deus continua avançando de geração em geração.

Meu desejo é que Deus me conceda a graça de investir minha vida na vida de outras pessoas, permitindo que o caráter de Cristo seja cada vez mais evidente em mim e, através de mim, alcance muitos outros.

Que cada pessoa que caminhe ao meu lado possa enxergar menos de Alex e mais de Jesus.

E que aqueles que forem discipulados também se tornem discipuladores, para que a corrente da graça nunca seja interrompida, até que toda a Terra seja alcançada pelo evangelho de Cristo.

“O discípulo não está acima do seu mestre; todo aquele que for bem instruído será como o seu mestre.” (Lucas 6.40)

Que Cristo seja formado em nós, para que possa ser visto através de nós.

Alex Barreto Cosmo


Leia também

Publico e privado na fé

1 Coríntios 10:31

Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus.

É possível glorificar a Deus vivendo a vida comum do lar cuidando das nossas famílias?

É possível glorificar a Deus fazendo bem nosso trabalho ou se destacando no meio acadêmico?

É possível glorificar a Deus fazendo bem uma arte ou cuidando do nosso jardim ou dos nossos sapatos?

É possível glorificar a Deus sem citar o nome de Deus ou diretamente um versículo bíblico?

Uma expressão artística ou do belo como numa pintura, numa poesia ou numa dança pode glorificar a Deus?

É possível glorificar a Deus em atividades como se servir moderadamente numa mesa, dar o lugar a uma outra pessoa mais necessitada, incluir alguém que está sendo marginalizado ou excluído?

A visão dualista, mesmo que nem saibamos direito o que é mas que foi incutida em nós, nos leva a ignorar ou questionar o impacto positivo da espiritualidade das outras atividades do contexto humano, provocando uma polarização e como consequências: ou uma espiritualidade sem corpo público, ou uma vida pública desinteressada do reflexo da glória de Deus .

Aproveito essa reflexão pra parabenizar Rony e Micheline pelo bom trabalho que estão fazendo nesse meio da arte. Cito eles, aproveitando o ensejo da premiação de música que receberam recentemente. Porém, é muito bom saber que estamos em uma comunidade onde muitos estão da mesma forma exaltando a Cristo na esfera do trabalho, da família, da arte etc.

Óbvio que essa visão prática e holística de vida cristã pode nos levar a cair no outro extremo onde negligenciemos o transcendente, a responsabilidade de simplesmente estender as nossas mãos e adorar ao Senhor, ensinar nossos filhos a fazer o mesmo, cantar louvores, a jejuarmos e orarmos, debruçarmos diante de sua palavra e nos estimularmos e exortamos mutuamente à fé, ao amor e as boas obras seja no contexto pessoal, familiar e congregacional.

Que o Senhor nos abençoe com equilíbrio e moderação nessa jornada de fé prática.

A Noiva Feminista: A Noiva de Cristo e o Perigo de Assumir um Papel que Não lhe Foi Dado

Nos últimos anos, algumas correntes teológicas progressistas, influenciadas pela teologia liberal e por certas interpretações da Teologia da Missão Integral, têm redesenhado a compreensão da missão e da identidade da Igreja. Para explicar o que está acontecendo, podemos usar uma analogia que, embora forte, ajuda a entender o perigo: é como se a Igreja, noiva de Cristo, quisesse assumir uma postura de “noiva feminista”, não no sentido de dignidade feminina (que é bíblica e inegociável), mas no sentido de rejeitar o papel estabelecido por Deus e buscar autonomia em relação ao Noivo.


1. O papel bíblico da Igreja como Noiva

A Escritura apresenta Cristo como o Noivo e a Igreja como Sua noiva amada, chamada a viver em submissão e amor:

“…como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo submissas a seus maridos.”
(Efésios 5:24)

“Regozije­mo-nos! Vamos alegrar-nos e dar-lhe glória! Pois chegou a hora do casamento do Cordeiro, e a sua noiva já se preparou.”
(Apocalipse 19:7)

Essa submissão não é opressão, mas resposta voluntária ao amor sacrificial do Noivo (Ef 5:25-27). A noiva bíblica não compete com Cristo, não corrige Sua Palavra, não toma Seu lugar. Ela confia e segue Sua direção com fé e alegria.


2. O que ocorre em certas correntes progressistas

A teologia progressista e liberal, em vários contextos, tem deslocado a centralidade da Bíblia para a centralidade de causas sociais ou culturais. Algumas tendências observadas são que essas correntes têm deslocado o foco da Igreja, colocando a centralização de agendas sociais acima da proclamação da salvação. Além disso, promovem a relativização da autoridade bíblica, reinterpretando textos claros sob lentes ideológicas. Também estimulam uma autonomia interpretativa da comunidade, agindo como se a Igreja tivesse o poder de “atualizar” Cristo conforme as demandas e valores da época.

Isso se traduz em uma postura em que a Igreja deixa de ver Cristo como Senhor absoluto e passa a vê-lo como parceiro de causas humanas — adaptando Sua mensagem às exigências do mundo, em vez de se moldar à Sua Palavra.


3. A analogia com o feminismo radical

O feminismo radical rejeita a ideia de liderança masculina, buscando autonomia absoluta. Fazendo a analogia, quando a Igreja assume uma postura progressista extrema, ela passa a julgar as palavras do Noivo à luz dos valores da época, colocando-se em pé de igualdade com Ele em termos de autoridade sobre Sua própria missão. Além disso, busca autonomia para decidir o que é “relevante” ou “aceitável” na fé cristã, assumindo para si um papel que pertence exclusivamente a Cristo.

É como se a noiva dissesse: “Não preciso seguir Sua liderança, eu decido qual será nosso caminho”.


4. O perigo dessa postura

A Bíblia adverte contra a infidelidade espiritual:

“Tenho contra você que você abandonou o seu primeiro amor.”
(Apocalipse 2:4)

Quando a Igreja deixa de se submeter à Palavra de Cristo, ela corre riscos sérios que afetam diretamente sua identidade e missão no mundo.

Primeiro, ela pode trocar o Evangelho eterno por mensagens temporais (Gl 1:6-9). Isso significa abandonar a essência da boa-nova — a salvação pela graça mediante a fé — para abraçar discursos moldados pelas demandas passageiras da cultura ou da política. Essas mensagens podem até parecer atraentes e relevantes, mas carecem do poder transformador que só o evangelho verdadeiro possui. Paulo advertiu severamente contra isso, chamando de anátema qualquer um que pregasse “outro evangelho”.

Segundo, existe o perigo de agradar ao mundo mais do que ao Noivo (Tg 4:4). Quando a Igreja busca a aprovação social acima da fidelidade a Cristo, ela inevitavelmente dilui a mensagem, evita temas que confrontam o pecado e se conforma com o padrão do século presente. Tiago chama essa atitude de “amizade com o mundo”, algo que nos coloca em inimizade contra Deus.

Terceiro, há o risco de enfraquecer a santidade e a autoridade da Palavra (2Tm 4:3-4). Ao relativizar ou reinterpretar as Escrituras para se adequar às preferências humanas, a Igreja perde seu papel profético e se torna apenas mais uma voz entre muitas. Paulo alertou que chegaria o tempo em que as pessoas não suportariam a sã doutrina e buscariam mestres que falassem apenas o que elas gostariam de ouvir — e esse tempo já chegou.

Assim, afastar-se da submissão à Palavra não é apenas um erro teológico; é um caminho que compromete a pureza da noiva, desfigura sua missão e a distancia do seu Senhor. A preservação do evangelho puro e a fidelidade a Cristo não são opções, mas condições para que a Igreja permaneça viva, relevante e frutífera aos olhos de Deus.

A “noiva feminista” dessa analogia pode até parecer mais atraente ao mundo, mas perde sua pureza e fidelidade.


5. A visão bíblica da noiva fiel

A imagem final que a Bíblia nos dá da noiva de Cristo é gloriosa:

“…a esposa do Cordeiro… vestida de linho fino, brilhante e puro.”
(Apocalipse 21:9; 19:8)

Essa noiva está preparada para o Noivo porque vive em constante vigilância e expectativa pelo Seu retorno. Sua vida é marcada pela prontidão espiritual, semelhante às virgens prudentes da parábola de Mateus 25:1-13, que mantiveram suas lâmpadas acesas e o azeite em reserva. Ela entende que o encontro com Cristo é o ápice da sua existência e, por isso, se dedica a manter-se pura e fiel.

Ela vive em santidade, separada para Deus e comprometida em refletir o caráter de Cristo em cada área da sua vida. Essa santidade não é fruto de um legalismo frio, mas de um relacionamento íntimo e transformador com o Noivo, que a purifica “pela lavagem de água pela palavra” (Ef 5:26-27).

Além disso, guarda a Palavra, não apenas como um livro sagrado, mas como a voz viva do Noivo, que dirige seus passos e molda suas decisões. Ela não se deixa levar por ventos de doutrina nem cede à pressão de distorcer as Escrituras para agradar aos homens. Como Maria, irmã de Lázaro, escolhe a boa parte de sentar-se aos pés de Cristo e ouvir Seus ensinamentos (Lc 10:39).

Por fim, não se conforma com o mundo (Rm 12:2). Ela não copia os padrões e valores da cultura ao redor, mas é transformada pela renovação da sua mente para discernir a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. Sua aparência, suas escolhas e sua mensagem são distintas, porque seu objetivo não é ser aceita pelo mundo, mas agradar exclusivamente ao seu Noivo.

Essa noiva vive de modo que, quando o Noivo voltar, possa ser encontrada irrepreensível, adornada não com joias externas, mas com a beleza interior de uma vida submissa e totalmente consagrada a Ele.

Ela sabe que sua alegria está em estar com Ele, não em buscar sua própria agenda.


6. Aplicação para nossos dias

Essa comparação serve como um alerta urgente para todos os que amam a Igreja e prezam pela pureza do evangelho. Não podemos permitir que a Igreja se molde à cultura a ponto de perder sua identidade, porque sua essência não vem das tendências sociais, mas do próprio Cristo. Quando a noiva adota as vestes do mundo, trocando a santidade por popularidade, ela deixa de ser luz e sal (Mt 5:13-16) e se torna irrelevante espiritualmente, ainda que ganhe aplausos temporários.

Também não podemos aceitar que se reinterprete Cristo para que Ele se encaixe nas expectativas do mundo. O Jesus apresentado nas Escrituras é o Senhor soberano, não um símbolo maleável para sustentar causas humanas. Alterar Sua mensagem ou suavizar Suas exigências para agradar aos homens é distorcer a verdade e pregar “outro evangelho” (Gl 1:6-9).

Por fim, não é admissível colocar causas humanas acima da missão de reconciliar o homem com Deus. A justiça social, o cuidado com os necessitados e a promoção da paz são aspectos importantes da fé cristã, mas não podem substituir a prioridade máxima de anunciar a salvação em Cristo. Sem a reconciliação com Deus, qualquer obra social perde seu valor eterno e se limita a aliviar temporariamente as dores de um mundo caído.

Quando a Igreja inverte essas prioridades, corre o risco de trocar a coroa incorruptível (1Co 9:25) por aplausos passageiros e de deixar de ser a noiva adornada para o Noivo, tornando-se apenas mais uma instituição humana entre tantas.

A verdadeira Missão Integral começa e termina em Cristo, e não em ideologias. Justiça social é bíblica, mas sem o evangelho, é apenas filantropia.


Conclusão

A Igreja foi chamada para ser noiva fiel, não uma parceira que negocia seus votos. Nosso papel é seguir a liderança do Noivo com amor e submissão, anunciando Sua verdade sem vergonha e sem adaptações para agradar ao mundo.

“Porque estou zeloso de vós com zelo de Deus; pois vos tenho preparado para vos apresentar como virgem pura a um marido, a saber, a Cristo.”
(2 Coríntios 11:2)

Que estejamos preparados para o dia em que o Noivo virá, não para nos encontrar disputando Sua autoridade, mas para nos receber adornados em santidade e fidelidade.

A síndrome do reizinho (TOD) e o caso de Adonias

O Transtorno Opositivo Desafiador (TOD) é uma condição comportamental em crianças e adolescentes caracterizada por um padrão persistente de comportamento desafiador, hostil, negativo e desobediente em relação às figuras de autoridade. Popularmente nomeado síndrome do reizinho ou do imperador, este transtorno é reconhecido por profissionais de saúde mental e está listado em manuais diagnósticos como o DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, Quinta Edição).

Pais cristãos

Identificar se uma criança ou adolescente pode estar sofrendo de Transtorno Desafiador Opositivo (TDO) envolve observar certos padrões de comportamento que são consistentemente negativos, desafiadores, desobedientes e hostis, especialmente em relação às figuras de autoridade. Os sinais incluem frequentes acessos de raiva, discussões com adultos, desafio ativo e recusa em cumprir com regras, provocação deliberada e culpabilização dos outros por seus erros ou comportamentos.

Do ponto de vista cristão, o tratamento para TDO pode envolver várias abordagens que alinham com valores bíblicos, como a paciência, o amor e a disciplina compreensiva. Aqui estão algumas sugestões de como lidar com isso biblicamente:

  1. Oração: A oração é fundamental. Peça a Deus por sabedoria, paciência e orientação no cuidado e educação da criança. Ore também pela saúde emocional e espiritual do seu filho.
  2. Amor e Compreensão: Mostrar amor incondicional é crucial. Isso não significa tolerar mau comportamento, mas garantir que a criança saiba que é amada, independentemente de suas ações.
  3. Limites Claros e Consistentes: Estabelecer e manter limites claros é essencial. Provérbios 22:6 diz: “Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele”. Limites claros ajudam a criança a entender o que é esperado dela.
  4. Disciplina Apropriada: A disciplina deve ser aplicada de forma justa e consistente, não apenas como uma forma de punição, mas como uma maneira de ensinar a criança a se comportar de maneira adequada. É importante equilibrar a correção com o amor, como sugerido em Efésios 6:4, que instrui os pais a não provocarem seus filhos à ira, mas a educá-los na disciplina e instrução do Senhor. Os pais deve evitar tanto a truculência quanto a permissividade procurando esse equilíbrio firme.
  5. Diálogo e Comunicação: Encoraje a expressão de sentimentos e pensamentos de maneira saudável. Escute ativamente e valide seus sentimentos, mostrando que você entende suas frustrações e está lá para ajudar.
  6. Exemplo Pessoal: Seja um modelo de comportamento cristão. As crianças aprendem muito pelo exemplo, então viver de uma maneira que reflita os valores cristãos como o amor, a paciência e a gentileza é incrivelmente poderoso.
  7. Suporte da Comunidade: Envolver-se com a comunidade cristã pode proporcionar suporte adicional e um ambiente positivo. Participar de atividades da igreja e grupos de jovens pode ajudar a criança a se sentir parte de uma comunidade amorosa e acolhedora.

Além dessas abordagens, pode ser benéfico procurar a ajuda de um profissional cristão em psicologia ou aconselhamento que respeite e integre os seus valores religiosos no processo de tratamento. É importante lembrar que cada criança é única e pode responder de maneira diferente às abordagens, por isso, continue buscando a orientação de Deus em cada passo.

O caso de Davi e seu filho Adonias

O rei Davi foi um homem de Deus em todos os sentidos. Mas a bíblia não esconde que ele falhou ao lidar com seus filhos, principalmente em relação a Adonias:

“Jamais seu pai o contrariou, dizendo: Por que procedes assim?”

1Reis 1.6

Aquele jovem viveu sem limites. Cresceu recebendo tudo o que queria. Fez tudo o que seus impulsos mandavam. E o pai? Jamais o recriminou por essas coisas.

Na juventude Adonias se exaltou e veio a lutar contra o seu próprio pai, tentando tomar-lhe o trono: “Eu reinarei” (1Rs 1.5), dizia ele. Quem jamais recebeu um “não” na infância, vai crescer imaginando que pode tudo. E ao tornar-se adulto, o mundo deverá “atender” aos seus caprichos.

A correta e bíblica criação dos filhos devem levar a uma compreensão que na vida não podemos tudo, e que não podemos ser governados por impulsos, desejos ou fantasias. Seria impossível a vida em sociedade se assim não fosse. A permissividade nunca foi boa orientadora, não leva ninguém ao conhecimento de seus limites, nem o prepara a um mundo onde há “deveres” e “obrigações”. Por isso…

“Aquele que retém a vara aborrece a seu filho, mas o que o ama, cedo o disciplina”

Pv 13.24

Nossos jovens precisam aprender que há uma série de leis naturais que, se quebradas, levam naturalmente a “punições”. Ninguém permanece impune se enfiar o dedo na tomada ou a mão no fogo aceso. A “punição” faz parte de um desenvolvimento do equilíbrio interno, ou seja, “eu não posso tudo”, e caso eu queira, sofrerei as consequências por avançar sobre o direito de outros.

O equilíbrio social também depende da “punição”: alguém que dirige em via urbana, embriagado, a mais de 120km por hora precisa ser punido para preservar a vida dos demais.

Alguém que age violentamente, demonstrando ser incapaz de viver harmoniosamente em sociedade, precisa ter sua ação restringida para que a sociedade não viva à mercê dele.  E mais uma vez recorro à Bíblia:

“Homem de grande ira tem de sofrer o dano; porque, se tu o livrares, virás ainda a fazê-lo de novo”

Pv 19.19

Qualquer iniciante em psicologia sabe que há transgressões, como crimes de violência sexual, que nunca são “ocasionais”, mas “contumazes”, e haverão de se repetir e repetir, caso não haja uma prevenção, um impedimento.

A palavra da Sabedoria é clara: ao livrar a criança, o adolescente, o jovem, ou o homem de ser “punido” por seu ato inconsequente teremos uma perpetuação daqueles atos. Lembrem-se: há dentro dele um sentimento de onipotência – “eu posso tudo”. Por vezes há uma visão romântica: gostaríamos que todas as crianças fossem sempre puras e boas. Mas não são:

“Até a criança se dá a conhecer pelas suas ações, se o que faz é puro e reto” .

Pv 20.11

O caso de Adonias, que é narrado no início do livro de 1 Reis na Bíblia, oferece um exemplo interessante que pode ser parcialmente relacionado ao comportamento observado no Transtorno Desafiador Opositivo (TDO), embora seja fundamental notar que a Bíblia não descreve condições psicológicas como entendemos hoje. Adonias, filho de Davi, exibiu comportamentos audaciosos e desafiadores ao se autoproclamar rei sem a autorização ou bênção de seu pai, o rei Davi, desconsiderando os direitos de Salomão, seu irmão, que era o herdeiro escolhido.

Aqui estão alguns pontos de intersecção entre a história de Adonias e o comportamento tipicamente associado ao TDO:

  1. Desafio à Autoridade: Adonias desafiou a autoridade de seu pai, o rei Davi, ao tentar usurpar o trono. Essa ação pode ser vista como paralela à desobediência e desafio a figuras de autoridade vistas em indivíduos com TDO.
  2. Autoconfiança Excessiva e Comportamento Impulsivo: Adonias demonstrou uma autoconfiança possivelmente exagerada e um senso de direito, organizando uma festa e convidando seus seguidores para declarar-se rei. Essa impulsividade e falta de consideração pelas consequências podem ser comparadas ao comportamento impulsivo observado no TDO.
  3. Falta de Previsão e Planejamento: Adonias não considerou completamente as implicações de suas ações nem planejou adequadamente sua tentativa de tomar o trono, o que reflete a falta de previsão típica em indivíduos com TDO.
  4. Conflito com Pares e Autoridades: A história mostra Adonias em conflito não apenas com seu pai, mas também com outros líderes importantes e seus irmãos, o que é comum em casos de TDO, onde o indivíduo muitas vezes entra em conflito com aqueles ao seu redor.

No contexto bíblico e cristão, a história de Adonias serve como um exemplo dos perigos do orgulho, da autoexaltação e do desrespeito pela ordem estabelecida por Deus. Para tratar comportamentos desafiadores e opositivos biblicamente, como discutido anteriormente, enfatiza-se a importância da disciplina amorosa, do estabelecimento de limites claros e consistentes, da oração, e do suporte da comunidade e da família.

O papel dos pais

É importante destacar o papel dos pais na história de Adonias, que também pode ser refletida nas discussões sobre o Transtorno Desafiador Opositivo (TDO). A Bíblia não detalha profundamente as interações entre Davi e Adonias, mas oferece uma informação crucial em 1 Reis 1:6, onde é mencionado que Davi nunca havia repreendido seu filho Adonias, dizendo: “Por que fazes assim?” Isso sugere uma falta de correção e possivelmente de comunicação aberta e efetiva entre eles.

Aqui estão algumas considerações sobre como as falhas dos pais podem ser vistas na perspectiva bíblica e sua relação com comportamentos desafiadores:

  1. Falta de Disciplina e Orientação: Davi não repreendeu Adonias por seus comportamentos anteriores, o que pode ter contribuído para que Adonias desenvolvesse uma sensação de impunidade e autoentitlement. A disciplina é crucial no desenvolvimento da criança, como enfatizado em Provérbios 29:17: “Corrige a teu filho, e te dará descanso; dará delícias a tua alma.”
  2. Ausência de Limites Claros: A aparente ausência de limites claros e consistentes por parte de Davi pode ter permitido que Adonias pensasse que poderia agir sem consequências. Isso é particularmente importante no contexto do TDO, onde a definição clara de expectativas e consequências é fundamental para a gestão do comportamento.
  3. Modelagem de Comportamento: Como rei e pai, Davi teve seus próprios desafios e falhas, incluindo momentos de grande erro moral e de liderança. As crianças frequentemente modelam o comportamento dos pais, e a conduta de Davi em outras áreas de sua vida poderia ter influenciado suas expectativas e ações de seus filhos.
  4. Engajamento Emocional: Não há indicações claras de que Davi tenha se engajado emocionalmente ou apoiado Adonias de maneira significativa, o que é um aspecto crucial na prevenção de problemas comportamentais. A presença ativa e positiva dos pais pode ser um fator protetor importante contra o desenvolvimento de comportamentos desafiantes.

No contexto cristão, essas observações reforçam a necessidade de um envolvimento parental proativo, amoroso e baseado em princípios bíblicos. Educar uma criança “na disciplina e admoestação do Senhor” (Efésios 6:4) inclui repreender quando necessário, estabelecer limites claros e justos, demonstrar amor incondicional e modelar um comportamento que honre a Deus.

Essas reflexões podem ajudar os pais modernos a considerar como suas próprias ações, engajamento e a maneira de impor disciplina podem impactar significativamente o comportamento e o desenvolvimento de seus filhos, especialmente aqueles que podem estar lutando com desafios comportamentais semelhantes aos de Adonias.

Segundo a psicologia

Características Principais do TOD:

  1. Comportamento Desafiador e Desobediência: Crianças com TOD frequentemente resistem ativamente a seguir regras e diretrizes estabelecidas por autoridades, como pais e professores. Elas podem deliberadamente tentar irritar outras pessoas ou se recusar a cumprir com os pedidos ou regras.
  2. Hostilidade: A interação com outras pessoas, especialmente com aqueles em posição de autoridade, é frequentemente hostil. A criança pode ter frequentes acessos de raiva e agir com rancor.
  3. Problemas de Controle dos Impulsos: Crianças com TOD muitas vezes apresentam dificuldade em controlar seus impulsos, o que pode resultar em comportamentos explosivos e reações desproporcionais às situações.

Critérios de Diagnóstico:

Para ser diagnosticado com TOD, a criança deve exibir um comportamento que se encaixa nas características mencionadas por pelo menos seis meses, e esse comportamento deve ser significativamente mais frequente ou severo do que o que é tipicamente observado em crianças de idade e desenvolvimento similares. Além disso, esses comportamentos devem causar prejuízo significativo no funcionamento social, acadêmico ou ocupacional da criança.

Causas:

As causas do TOD são multifatoriais, envolvendo uma combinação de fatores genéticos, psicológicos, sociais e ambientais. Aspectos como temperamento difícil, baixa tolerância à frustração, modelos de comportamento negativos, ou experiências familiares desafiadoras podem contribuir para o desenvolvimento do transtorno.

Tratamento:

O tratamento para o TOD geralmente envolve terapia comportamental, que pode incluir treinamento para os pais em técnicas de manejo de comportamento, terapia familiar para melhorar a comunicação e as interações dentro da família, e terapia individual para ajudar a criança a desenvolver habilidades de enfrentamento, resolução de problemas e controle dos impulsos.

A abordagem de tratamento pode ser apoiada e enriquecida por valores e práticas cristãs, como já discutido, incluindo a orientação bíblica para disciplina e amor, a importância da comunidade e do suporte da igreja, e a prática da oração e da fé em Deus para a sabedoria e a força na educação dos filhos.


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Tijolos ou Pedras Vivas?

À medida que se aproximam dele, a pedra viva—rejeitada pelos homens, mas escolhida por Deus e preciosa para ele—, vocês também estão sendo utilizados como pedras vivas na edificação de uma casa espiritual para serem sacerdócio santo, oferecendo sacrifícios espirituais aceitáveis a Deus, por meio de Jesus Cristo.

1 Pedro 2:4-5

No grandioso projeto da criação e redenção, Deus escolheu um material singular para edificar o Seu reino: as pedras vivas. Esta escolha divina contrasta profundamente com a preferência humana pelos tijolos, revelando duas visões distintas de construção e propósito.

Tijolos: uniformidade e controle

Desde os tempos antigos, o homem tem buscado a perfeição e uniformidade em suas construções, como exemplificado na invenção dos tijolos pelos egípcios. Estes blocos, feitos de barro e palha, simbolizam o esforço humano em criar um padrão homogêneo e controlável, buscando eficiência e perfeição nas edificações. A Bíblia relata como os egípcios utilizavam tijolos para construir suas cidades e armazéns (Êxodo 1:14), uma metáfora para os sistemas e estruturas criados pelo homem, muitas vezes focados no poder e na opressão. Tijolos são feitos num molde pressionado, pedras vividas são extraídas com marteladas .

As vezes queremos o progresso mas não queremos o processo.

Pedras vivas: diversidade e propósito

Em contraste, Deus instruiu o uso de pedras não lavradas na construção de Seu altar (Êxodo 20:25). Estas pedras, não moldadas por ferramentas humanas, representam a beleza e a singularidade da criação de Deus. Cada pedra, única em sua forma, cor e tamanho, simboliza a diversidade e individualidade que Deus valoriza em Seu reino. Este é um reino não baseado na uniformidade forçada, mas na harmonia da diversidade, onde cada peça, por mais imperfeita que pareça, tem um lugar e um propósito.

A Bíblia nos apresenta uma metáfora poderosa com Cristo como a “pedra angular” (Efésios 2:20), a peça fundamental que dá sentido e coesão a todo o edifício. Cristo não é uma pedra moldada segundo os padrões humanos de perfeição, mas sim o Filho de Deus, perfeito em Sua natureza, que aceita e une as pedras vivas, os crentes, com todas as suas imperfeições e diversidades em um templo espiritual.

Em Cristo, a expectativa de perfeccionismo humano é substituída pela aceitação da graça divina. N’Ele, somos chamados não a nos conformarmos a um padrão rígido e opressivo, mas a nos unirmos em nossas diferenças, contribuindo cada um com nossas características únicas para a construção do reino de Deus. Este reino não é edificado com tijolos de uniformidade e opressão, mas com pedras vivas de diversidade e liberdade, firmemente unidas pela pedra angular, Jesus Cristo.

Ao refletirmos sobre nossa participação na construção do reino de Deus, somos convidados a abandonar a busca por perfeição humana e abraçar a perfeita diversidade divina, encontrando nosso lugar único ao lado da pedra angular, Cristo, em um templo espiritual onde cada pedra viva é essencial e valorizada.

A prática dos “uns aos outros”

A essência prática dessa construção divina reside na dinâmica do “uns aos outros”, um princípio fundamental nas Escrituras para a vida em comunidade. Este conceito nos lembra que, assim como as pedras em um edifício se apoiam e se complementam, nós, como membros do corpo de Cristo, somos chamados a viver em interdependência e complementaridade. Cada crente possui dons, talentos e capacidades únicas que, quando compartilhados, contribuem para o fortalecimento e a edificação do corpo de Cristo.

Na prática, isso significa que a falta de um é suprida pela abundância do outro. Se um membro sofre, todos sofrem; se um é honrado, todos se alegram (1 Coríntios 12:26). Esta é a beleza da igreja como um edifício espiritual: não há pedras insignificantes, cada uma tem um papel vital. Na diversidade de dons e serviços, há uma unidade que reflete a glória de Deus. Através do amor, do serviço, do encorajamento e da exortação mútuos, edificamos uns aos outros, seguindo o exemplo de Cristo, a pedra angular.

Assim, na prática diária da fé, cada ato de amor, cada palavra de encorajamento, cada gesto de serviço, contribui para a edificação do reino de Deus. Este edifício espiritual, em constante construção, é fortalecido pela diversidade e unido pelo amor de Cristo, demonstrando ao mundo a beleza e a sabedoria do plano divino.

Cristo, a pedra angular

A conclusão desse maravilhoso paralelo entre tijolos e pedras vivas encontra-se nas palavras de Jesus a Pedro, que encapsulam de maneira sublime a essência dessa construção divina. Em Mateus 16:18, Jesus diz: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”. Este trocadilho, onde o nome de Pedro (Petros em grego, que significa “pedra”) é usado para destacar a sua futura liderança na igreja, revela um aspecto importante da construção do Reino de Deus.

A declaração de Jesus transcende a pessoa de Pedro, apontando para a maior verdade que a igreja é construída sobre a revelação de Cristo como o Messias, o Filho do Deus vivo, que Pedro acabara de confessar e que é Ele a pedra angular da igreja. Jesus declara a Pedro sua vulnerabilidade, ou seja, ele é um fragmento de pedra, e ao mesmo tempo revela sua autossuficiência, apresentando a si mesmo como a rocha sobre a qual a igreja é estabelecida. Assim como uma pedra individual contribui para a integridade e força de um edifício, cada crente, firmado na revelação de Cristo, fortalece a igreja. A pedra que é Cristo, e a confissão de fé n’Ele, formam a base inabalável sobre a qual a igreja é edificada.

Portanto, ao nos engajarmos na obra de Deus, cada um como uma pedra viva, somos chamados a reconhecer Cristo como a fundação de nossa fé e missão. Neste edifício espiritual, onde Jesus é a pedra angular, cada pedra viva – cada crente – tem um lugar vital, unido em amor e propósito, para a glória de Deus. Assim, a igreja, edificada sobre a rocha que é Cristo, resiste e prevalece contra todas as adversidades, refletindo a sabedoria e a majestade do plano divino.

Texto escrito durante as férias de 2024 enquanto lia Êxodo 5. Os Egípcios estavam tão obsessivos com a descoberta dos tijolos e o desejo de suas construções , e oprimindo o povo de Deus , as pedras vivas , o povo que Deus estava talha do para si.


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Mas esta casta não se expele senão por meio de oração e jejum.

Cada ano fazemos uma leitura da Bíblia inteira em grupo, com a coordenação do Aprisco. Tem sido uma experiência maravilhosa que traz novas oportunidades pelos olhares e questionamentos ou interpretações dos texto lidos por cada um dos irmãos.

Na leitura de hoje passamos pelo texto:

[Mas esta casta não se expele senão por meio de oração e jejum.]

Mateus 17:21

Sobre esse texto a irmã S.C. escreveu:

“Sempre que eu lia essa passagem bíblica, lia entendendo que Jesus se referia ao demônio que estava no menino, até um dia ver o Pastor Luciano Subirá fazer uma reflexão de que Jesus estava se referindo aos discípulos dele naquele momento, pela falta de fé na caminhada com ele ( vou tentar achar o vídeo). Queria saber se alguém concorda, ou não… queria entender melhor.” S.C.

O problema textual de Mateus 17.21

Falando do texto, ele se encontra entre colchetes, o que é uma referência de que esse versículo não está explicitamente ou integralmente escrito em todos os manuscritos, mas implícito ou acrescido trazendo outras fontes como de outro evangelho para dar melhor sentido ao mesmo relato. Vamos em frente, pois deixarei umas considerações no final desse texto.

O trecho do vídeo é esse , indo até uns 14min20s

A interpretação apresentada no vídeo

Falando do vídeo, percebi uma certa surpresa de Luciano quando Abe fala que no texto não teria o nome “demônios”. O que é verdade porém, a omissão do nome não retiraria o objeto que foi estabelecido na pergunta dos discípulos do porquê não teriam conseguido expulsar aquele demônio.

Ainda no vídeo, Abe citou Andrew Wommack e Kenneth Hagin que são autores carismáticos e líderes de movimentos de fé e cura. Vale a pena lê-los porém com discernimento pois há certas posições que colocam a vontade e necessidade humanas no centro e deixam de lado temas como a soberania de Deus, a restauração de tudo no mundo vindouro etc.

Quando lemos a Bíblia precisamos fazer um exercício de esvaziamento de nossas preconfiguracões e preferências (pré-inferências) . Deixar o texto bíblico falar o que ele fala e a Bíblia explicar-se por si só. Digo isso porque a depender de nossa escola teológica, filosófica, das experiências pessoais ou até orientações e costumes denominacionais podemos arrastar o texto para agregar a uma visão que já temos ou afastar da visão a qual somos mais resistentes.

É também atividade do exegeta bíblico (quem interpreta minuciosamente ou faz exegese), observar todo o contexto versículos, capítulos e até todo um livro, verificar os textos com relatos paralelos como no caso dos evangelhos. Nesse caso temos ainda os relatos em Marcos 9.14-29 e Lucas 9.37-43 .

A Transfiguração de Rafael

Li em um comentário sobre essa pintura de Rafael Sanzio datada entre 1517-1520 muito interessante. Observe:

A Transfiguração – Rafael Sanzio

Essa pintura foi encomendada e baseada em Mateus 17.1-21 que retrata o momento glorioso da transfiguração diante de alguns discípulos. Ao mesmo tempo na mesma tela na parte mais inferior vemos o desespero da derrota dos discípulos no enfrentamento de um demônio na vida de um garoto epilético (outra treta). É o retrato claro de nossas vidas, dos altos e baixos e de como vivemos essa coexistência dos topos e vales.

Considerações

Creio que é sincera a afirmação daquele pai desesperado quando diz : “… eu creio, ajuda na minha incredulidade…” Mc 9.14-29. Deixa claro que o nome de Jesus tem todo o poder sempre, nós porém temos nossas variações de fé pela Graça do Pai, um mestre paciente. Somente a presença de Jesus o filho de Deus pode trazer real vitória às nossas vidas.

O texto de Mateus aponta mais diretamente para a incredulidade dos discípulos mas, podemos observar que o tema da incredulidade se amplia nos outros evangelhos. “… geração incrédula até quando vos suportarei…”, “…ajuda-me na minha incredulidade…” e “… por causa da pequenez da vossa fé…”.

Os discípulos já haviam recebido autoridade e expulsado outros demônios mas aquele especificamente ofereceu uma resistência, o que que acabou expondo uma fraqueza de fé (incredulidade) dos discípulos. Não digo uma total falta de fé mas uma fé deficiente para enfrentar tal circunstância. A fé tem gradações como vemos em Mateus 6.30, 8.26, 14.31, 16.8 e Romanos 14.1. Além disso o relato em Marcos traz um detalhe que é a presença dos escribas interrogando os discípulos de Jesus ampliando a vergonha deles naquela situação.

Da mesma forma, podemos afirmar que há gradações também nas operações malignas, espíritos imundos com resistências diferenciadas. Assim os que estão na frente de batalha precisam Jejuar e orar para: 1) desfrutar de maior consciência de sua relação com Deus; 2) convicção da vontade do pai e sujeição absoluta a ela; 3) ter uma vida consagrada e limpa para que sua consciência não seja afetada bem como o exercício da autoridade em nome de Jesus; 5) manter o foco, retirar as distrações e manter a resistência. A obra de libertação é obra de resistência.

Sujeitai-vos, pois, a Deus, resisti ao diabo, e ele fugirá de vós.

Tiago 4.7

Podemos analisar tudo de um ponto de vista teológico, dissecando o texto como um sapo na mesa de um laboratório, mas não podemos esquecer que lemos o relato de uma experiência real vivida por pessoas reais com suas caminhadas pessoais e com Jesus, sentimentos e percepções diferentes sobre o que estava acontecendo.

Temos um pai que por anos sofria com o risco de vida do filho, passando por um grupo de discípulos ainda em início de caminhada e aprendizado, tomados de vergonha e medo por conta de um mal que não conseguiram repreender e um grupo de escribas que talvez estavam ali somente se satisfazendo com a falência dos seguidores do novo mestre que cativava os corações.

Jesus chega, interpela os escribas, ouve o pai dolorido e angustiado, repreende seus discípulos, liberta o menino e ensina seus discípulos o caminho de dependência e sujeição ao Pai para vencer as lutas que se apresentam: Jejum e oração.

Fé, jejum e oração

Não precisamos de fato escolher se Jesus tratava da incredulidade ou dos demônios ou do jejum e oração. Tudo está conectado . Tal como um músculo e um preparo cardiorrespiratório só se revelam diante do peso ou atividade que os exija, assim a fé vai se revelando ante as adversidades que enfrentamos. Para treinar e obter músculos de fé e preparo cardiorrespiratório espiritual a dica do mestre e personal trainer Jesus é : jejum e oração. Como diria um amigo:

“Temos mil mortes a viver.”

Georges Bonneval

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Jesus Tabernaculou = se fez carne

Jesus é o Verbo que se fez carne, o logos de Deus, a palavra (Jo 1) Inicialmente devemos crer que tudo que Jesus conquistou foi consequência de ter se feito carne para que morresse na cruz. Ele não foi egoísta, desejando manter-se Deus. Quem é egoísta busca seus próprios interesses. Nossos maiores problemas são consequência do nosso egoísmo. Não ser egoísta é buscar o olhar do outro. Jesus fazia isso. Ele tinha misericórdia, pois não era egoísta. Ele sentia, pois não sentia apenas suas sensações, mas sentia pelos outros.

Paulo apela para a igreja dizendo: Portanto, se há alguma exortação em Cristo, se alguma consolação de amor, se alguma comunhão do Espírito, se alguns entranháveis afetos e compaixões, completai o meu gozo, para que tenhais o mesmo modo de pensar, tendo o mesmo amor, o mesmo ânimo, pensando a mesma coisa; (Filipenses 2:1-2.)

Parece uma utopia a ideia de achar que todos pensem a mesma coisa, mas não é disso que o texto fala. Antes ele fala da maneira de refletir. É tentar ver o mundo pela mesma ótica. O padrão de Cristo. Quando olhamos por um telescópio todos vemos um universo pela mesma ótica. 

Tomando como exemplo um casal. Se eles assumem a Palavra de Deus como padrão. Se eles se dobram a essa palavra tudo se resolve. Se pelo menos um enxerga por essa ótica as coisas se resolvem. Um dos dois deve buscar a fazer a sua parte e esperar que Deus faça a parte dEle e ajuste. 

Temos que buscar uma vida que o interesse não seja levar vantagem. Tripudiar sobre a vida do outro pois achamos que temos a razão não é o correto. Todos são iguais diante de Deus. Eu cheguei, eu fiz… porque eu paguei o preço… nada é correto, antes de tudo é vaidade. A sabedoria consiste em levar esse modo de servir, como sendo o menor, ao mundo. Todos somos pó.

É importante não deixar a vaidade chegar ao nosso coração. Deixemos que a humildade chegue. Se ufanar de glórias e conquistas acaba com o coração do homem. A Bíblia nos exorta que a soberba precede a queda. Vide Nabucodonosor e a sua Babilônia. Assumir a glória de Deus nos leva a loucura.

Quando consideramos o outro como superior a nós, Deus se encarrega de nos exaltar. Sempre há vitória. Aparentemente é uma derrota, mas ser menor é o início da vida vitoriosa. Cristo nos ensinou assim. Sendo mestre foi o menor dos escravos, o que lavava pés.

 O versículo 5 é o triunfante. 

Tende em vós aquele sentimento que houve também em Cristo Jesus,( Filipenses 2:5)

 Deveria ser uma bússola. Algo que ecoasse em nossa mente a todo tempo pois esse é o caminho do Reino de Deus. É um caminho apertado. 

Muitos buscam na religião essa bússola. Ancorar ou se guiar com base na tradição religiosa é erro. Cristo e o Reino não podem ser substituídos pela religiosidade. 

Lembremos que nosso guia é o Espirito Santo. Ele é alguém que nos coloniza e nos mostra as leis e diretrizes do Reino. Esse é o sentimento que havia em Cristo. 

Temperamentos, modos de viver devem se submeter ao modo de Deus. Ao padrão de Deus. Ser controlado por emoção acaba nos levando a uma vida flutuante. Intelecto e emoções não fazem o papel do Espirito Santo. O nome dessa ação equilibrada movida pelo Espirito é temperança. 

Como em todo reino no Reino de Deus existe leis. Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Essa é a Lei que governa o Reino. Deus criou as Leis e devemos viver debaixo delas. Não viver as Leis é rebeldia. Esse padrão de vida não condiz com aqueles que banqueteiam com o Rei. Lembre-se dos convites para o banquete. Caso não façamos a nossa parte Ele convidará aos mendigos, aos sem-teto, a todos, menos aos rebeldes.

Jesus resolveu obedecer, versículo 6, mesmo sendo em forma de Deus. O padrão é obedecer ao padrão do Reino. 

O nosso dia-a-dia é o local e momento de colocarmos a prova o que aprendemos. Treinamos na igreja e jogamos nas nossas ações cotidianas. Jogo é jogo, treino é treino. A carne não deve nos dominar, pois as provas virão. A quem iremos manifestar?

Entenda que a luta de Cristo, também, foi em obedecer. Ele foi homem. Ele era carne, tinha vontade. Ele tinha a possibilidade de pecar. Ninguém que não tenha essa possibilidade pode ser tentado. Ele foi tentado em tudo. Ele cumpriu a Lei do Reino. Ele não veio para destruir a Lei, veio para cumprir. Ele assume a Constituição do Reino de Deus e passa a ser a vivificação dela. Cristo é a Constituição viva do Reino de Deus. 

Cristo não foi egoísta. Não quis ser Deus. Embora pudesse. Precisamos nos submeter.

O versículo 7 diz que Jesus se esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens;( Filipenses 2:7).

Deus não vai nos esvaziar. Somos nós que devemos nos esvaziar. Esvaziar-se a si mesmo. 

Muitas pessoas não se esvaziam e ainda retém outras pessoas por falta de perdão. Perdoar é o segredo para uma boa vida. Reter trás o mal e não afeta a vida de quem é retido. O credor impassível reteu alguém por uma miséria, quando foi preso, não podia mais cobrar. Fazer o bem é o segredo. Não deixe o inimigo tripudiar da sua vida. A sua ação deve ser segundo o padrão do Reino.

Jesus nos ensinou a buscar primeiro o Reino pois nossas reações às ações do mundo deve ser baseada nas diretrizes do Reino. Busquemos o Reino em nossas ações antes que o reino do maligno ou da nossa carne chegue primeiro ao nosso coração.

Jesus nos ensinou a não se arvorar para sentar-se a frente, nos primeiros lugares. Sentar nas últimas fileira pode levar a alguém, que note, a te trazer para frente. Vergonhoso é estar na frente e ser convidado a ir para trás. 

Jesus, Deus, esvaziou-se. Tornou-se homem. Não bastando ser homem, se humilhou  e foi obediente até a morte. O versículo 9 diz que Deus o exaltou soberanamente. Essa é a resposta de Deus para aqueles que vivem segundo as Leis do Reino.

Não houve busca de fazer valer opinião, posição, vontade, nada. Jesus vinha para salvar e não para condenar. Pois essa era a missão dELe diante daquilo que o Reino e o Rei havia posto.

O Rei resolve nossos problemas, faz valer nossas posições. Tudo cabe a Ele, do jeito dEle e no tempo dEle. 

Entregar os problemas nas mãos do Rei é garantia de resolução. Devemos apenas confiar e descansar, como Jesus ensinou. Normalmente nós não entregamos nosso problemas a Deus. Dar não é segurar na outra ponta. Dar é largar, soltar, deixar e esquecer em confiança. O que a força do nosso braço pode conseguir?

No meio do caminho Deus nos guia por melhoras para que não venhamos a erra, mais uma vez. Para Deus o que mais vale é o nosso caráter transformado. O Reino é assim. Transformar caráter depende de nós também, uma vez que o Espirito Santo sinaliza mas a mudança é nossa. Para Deus é melhor que você não tenha e vá para o céu do que te dar e ver tua alma perecer.

As principais razões de Deus “ainda” não ter realizado as vontades das pessoas, normalmente, são: 

1. Deus não quer te dar, pois essa não é a vontade dEle;

2. Você não está preparado para receber o que Ele tem pra ti, pois é sempre mais do que pedimos e Ele está moldando seu caráter para que então você possa receber o que ele tem pra você;

3. Ele está te ensinado a dar valor ao que vai receber e a não chegar depois e dizer que foi a força do seu braço que conseguiu mas sim o Senhor, pois Ele pode dar.

A fé é acreditar que tudo que está na palavra vai se cumprir ainda que olhos, ouvidos não sintam. Tudo vai se cumprir e que Ele irá resolver. Pois Ele cuida de nós. As nossas angustias só nos levam a esquecer que temos um Rei que cuida de nós. Ele nos toma pela mão direita. É Ele que nos esforça. Devemos confiar, pois tudo vem dEle. O Reino é REAL. Ele vai se materializar em nossa vida a partir de nós mesmos.

Texto de 30 de setembro de 2010

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