Mas esta casta não se expele senão por meio de oração e jejum.

Cada ano fazemos uma leitura da Bíblia inteira em grupo, com a coordenação do Aprisco. Tem sido uma experiência maravilhosa que traz novas oportunidades pelos olhares e questionamentos ou interpretações dos texto lidos por cada um dos irmãos.

Na leitura de hoje passamos pelo texto:

[Mas esta casta não se expele senão por meio de oração e jejum.]

Mateus 17:21

Sobre esse texto a irmã S.C. escreveu:

“Sempre que eu lia essa passagem bíblica, lia entendendo que Jesus se referia ao demônio que estava no menino, até um dia ver o Pastor Luciano Subirá fazer uma reflexão de que Jesus estava se referindo aos discípulos dele naquele momento, pela falta de fé na caminhada com ele ( vou tentar achar o vídeo). Queria saber se alguém concorda, ou não… queria entender melhor.” S.C.

Falando do texto, ele se encontra entre colchetes, o que é uma referência de que esse versículo não está explicitamente ou integralmente escrito em todos os manuscritos, mas implícito ou acrescido trazendo outras fontes como de outro evangelho para dar melhor sentido ao mesmo relato. Vamos em frente, pois deixarei umas considerações no final desse texto.

O trecho do vídeo é esse , indo até uns 14min20s

Falando do vídeo, percebi uma certa surpresa de Luciano quando Abe fala que no texto não teria o nome “demônios”. O que é verdade porém, a omissão do nome não retiraria o objeto que foi estabelecido na pergunta dos discípulos do porquê não teriam conseguido expulsar aquele demônio.

Ainda no vídeo, Abe citou Andrew Wommack e Kenneth Hagin que são autores carismáticos e líderes de movimentos de fé e cura. Vale a pena lê-los porém com discernimento pois há certas posições que colocam a vontade e necessidade humanas no centro e deixam de lado temas como a soberania de Deus, a restauração de tudo no mundo vindouro etc.

Quando lemos a Bíblia precisamos fazer um exercício de esvaziamento de nossas preconfiguracões e preferências (pré-inferências) . Deixar o texto bíblico falar o que ele fala e a Bíblia explicar-se por si só. Digo isso porque a depender de nossa escola teológica, filosófica, das experiências pessoais ou até orientações e costumes denominacionais podemos arrastar o texto para agregar a uma visão que já temos ou afastar da visão a qual somos mais resistentes.

É também atividade do exegeta bíblico (quem interpreta minuciosamente ou faz exegese), observar todo o contexto versículos, capítulos e até todo um livro, verificar os textos com relatos paralelos como no caso dos evangelhos. Nesse caso temos ainda os relatos em Marcos 9.14-29 e Lucas 9.37-43 .

Li em um comentário sobre essa pintura de Rafael Sanzio datada entre 1517-1520 muito interessante. Observe:

A Transfiguração – Rafael Sanzio

Essa pintura foi encomendada e baseada em Mateus 17.1-21 que retrata o momento glorioso da transfiguração diante de alguns discípulos. Ao mesmo tempo na mesma tela na parte mais inferior vemos o desespero da derrota dos discípulos no enfrentamento de um demônio na vida de um garoto epilético (outra treta). É o retrato claro de nossas vidas, dos altos e baixos e de como vivemos essa coexistência dos topos e vales.

Considerações

Creio que é sincera a afirmação daquele pai desesperado quando diz : “… eu creio, ajuda na minha incredulidade…” Mc 9.14-29. Deixa claro que o nome de Jesus tem todo o poder sempre, nós porém temos nossas variações de fé pela Graça do Pai, um mestre paciente. Somente a presença de Jesus o filho de Deus pode trazer real vitória às nossas vidas.

O texto de Mateus aponta mais diretamente para a incredulidade dos discípulos mas, podemos observar que o tema da incredulidade se amplia nos outros evangelhos. “… geração incrédula até quando vos suportarei…”, “…ajuda-me na minha incredulidade…” e “… por causa da pequenez da vossa fé…”.

Os discípulos já haviam recebido autoridade e expulsado outros demônios mas aquele especificamente ofereceu uma resistência, o que que acabou expondo uma fraqueza de fé (incredulidade) dos discípulos. Não digo uma total falta de fé mas uma fé deficiente para enfrentar tal circunstância. A fé tem gradações como vemos em Mateus 6.30, 8.26, 14.31, 16.8 e Romanos 14.1. Além disso o relato em Marcos traz um detalhe que é a presença dos escribas interrogando os discípulos de Jesus ampliando a vergonha deles naquela situação.

Da mesma forma, podemos afirmar que há gradações também nas operações malignas, espíritos imundos com resistências diferenciadas. Assim os que estão na frente de batalha precisam Jejuar e orar para: 1) desfrutar de maior consciência de sua relação com Deus; 2) convicção da vontade do pai e sujeição absoluta a ela; 3) ter uma vida consagrada e limpa para que sua consciência não seja afetada bem como o exercício da autoridade em nome de Jesus; 5) manter o foco, retirar as distrações e manter a resistência. A obra de libertação é obra de resistência.

Sujeitai-vos, pois, a Deus, resisti ao diabo, e ele fugirá de vós.

Tiago 4.7

Podemos analisar tudo de um ponto de vista teológico, dissecando o texto como um sapo na mesa de um laboratório, mas não podemos esquecer que lemos o relato de uma experiência real vivida por pessoas reais com suas caminhadas pessoais e com Jesus, sentimentos e percepções diferentes sobre o que estava acontecendo.

Temos um pai que por anos sofria com o risco de vida do filho, passando por um grupo de discípulos ainda em início de caminhada e aprendizado, tomados de vergonha e medo por conta de um mal que não conseguiram repreender e um grupo de escribas que talvez estavam ali somente se satisfazendo com a falência dos seguidores do novo mestre que cativava os corações.

Jesus chega, interpela os escribas, ouve o pai dolorido e angustiado, repreende seus discípulos, liberta o menino e ensina seus discípulos o caminho de dependência e sujeição ao Pai para vencer as lutas que se apresentam: Jejum e oração.

Não precisamos de fato escolher se Jesus tratava da incredulidade ou dos demônios ou do jejum e oração. Tudo está conectado . Tal como um músculo e um preparo cardiorrespiratório só se revelam diante do peso ou atividade que os exija, assim a fé vai se revelando ante as adversidades que enfrentamos. Para treinar e obter músculos de fé e preparo cardiorrespiratório espiritual a dica do mestre e personal trainer Jesus é : jejum e oração. Como diria um amigo:

“Temos mil mortes a viver.”

Georges Bonneval

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