
Efeito dominó

Compartilhamos tudo que achamos interessante ou produzimos . We share interesting stuff that we see or make.


A antiga Oliveira de Vouves é uma árvore com aproximadamente 2.900 anos. Situada em um cemitério na ilha de Creta, na Grécia, ela viveu durante a escrita da Ilíada por Homero, a idade de ouro de Atenas, ascensão do Império Romano e o nascimento de Cristo. Ainda produz azeitonas.
Gosto muito de árvores antigas e essa sensação de que ela permaneceu ali por tantas gerações e intempéries.
Isaías 61:1-3
O Espírito do SENHOR Deus está sobre mim, porque o SENHOR me ungiu para pregar boas-novas aos quebrantados, enviou-me a curar os quebrantados de coração, a proclamar libertação aos cativos e a pôr em liberdade os algemados; a apregoar o ano aceitável do SENHOR e o dia da vingança do nosso Deus; a consolar todos os que choram e a pôr sobre os que em Sião estão de luto uma coroa em vez de cinzas, óleo de alegria, em vez de pranto, veste de louvor, em vez de espírito angustiado; a fim de que se chamem carvalhos de justiça, plantados pelo SENHOR para a sua glória.
O dom criativo – Liberdade na arte e a libertinagem mundana

Mateus 13.33 e 26.17-30
Introdução
Todos nós trazemos conosco uma bagagem (olha o Peregrino aí…) , familiar, religiosa e cultural. Todos temos também um background educacional e de vivências profissionais. Esses elementos, combinados ao potencial criativo de cada um, e a interação com o tempo e as circunstâncias compõem aquilo que influenciará as nossa decisões e portanto a arte que produzimos.
Essa arte, vivida na perspectiva congregacional, receberá a direção do serviço cristão, da orientação bíblico-doutrinária da igreja e o fazermos coletivamente ao invés do simples fazer.
Arte – substantivo feminino
– habilidade ou disposição dirigida para a execução de uma finalidade prática ou teórica, realizada de forma consciente, controlada e racional. – conjunto de meios e procedimentos através dos quais é possível a obtenção de finalidades práticas ou a produção de objetos; técnica.
No Aprisco e a relação com a cultura, a instrução são os 3 R’s. Precisamos identificar o que culturalmente precisa ser RECEBIDO, o que precisa ser REJEITADO e o que deve ser REDIMIDO.
Sendo um pouco mais específico sobre o que significa, como cristão e artista, ver e responder ao mundo caído de maneira diferente, usaremos, mesmo que bem superficialmente, a visão de Hans Rookmaaker (1922/1977), escritor holandês que se tornou cristão muito contribuiu para a reflexão da arte cristã. Rookmaaker esboça duas visões de vida contrastantes, uma fundada na rebelião e na permissividade, como se vê na cultura de nosso tempo, e a outra baseada na liberdade que um cristão descobre em Cristo. Creio que podemos usar essa comparação e o conjunto notável de contrastes que Hans utilizou, para ponderar sobre esse tema.
É preciso considerar as várias ameaças à liberdade vindas tanto da igreja, como do estado e e da sociedade. Assim, há uma tarefa duradoura dos cristãos em geral incluindo, é claro, artistas cristãos, de desmascarar pseudo-deuses ou falsos ideais e reabrir a vista para a plenitude da realidade (Cl 2.17), desmascarando o que é falso, apontando para a plenitude da vida e renovação. Nisto consiste o núcleo de sua visão para o chamado de um artista cristão.
Na visão de Rookmaaker, a liberdade que é encontrada em Cristo fornece ao cristão que é um artista um poço de discernimento do qual pode extrair uma visão verdadeira da realidade, que emerge de focalizar cuidadosamente as lentes da sabedoria bíblica no mundo ao nosso redor. Na visão de Rookmaaker, nossa tarefa então, como cristãos, é trabalhar com base na liberdade que conquistamos na redenção de Cristo, procurando maneiras positivas de expressar uma visão verdadeira da realidade, uma realidade maior que a soma da natureza mais o homem. Enquanto uns clamam por arte que projete uma visão do florescimento humano além do princípio da realidade, Rookmaaker nos chama a ver a realidade através dos olhos da fé.
Qual é então a natureza da liberdade que Rookmaaker está descrevendo? Em primeiro lugar, é melhor compreendido em seu contraste entre a permissividade secular e a liberdade cristã, como mencionado acima, que por justaposição ecoa o padrão das consequências das bênçãos e maldições de Deus, conforme recitado por Moisés em Deuteronômio, capítulos 4-8. Mas, mais particularmente, Rookmaaker concentra seu argumento em quatro liberdades críticas: liberdade diante de Deus, liberdade em relação a nós mesmos, liberdade em relação aos outros e liberdade e abertura em relação à natureza.
Liberdade diante de Deus:
Temos “confiança diante de Deus”. “Nós o consideramos um Pai amado, com reverência e temor, e tentamos não entristecê-lo.” Tal é a confiança que temos diante de Deus, por meio de Cristo. Não que possamos reivindicar qualquer coisa com base em nossos próprios méritos, mas a nossa capacidade vem de Deus. Ele nos capacitou para sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do Espírito; pois a letra mata, mas o Espírito vivifica.
2 Coríntios 3:4-6
Liberdade em relação a nós mesmos:
Não precisamos ter medo de ser nós mesmos, pois Cristo nos aceitou como somos, com nossas próprias personalidades. Contrariedade e auto-mutilação não pertencem ao evangelho (Cl 2:16-23). No entanto, a auto-realização também não é o objetivo da pessoa renovada em Cristo, pois a vida é um dom e uma tarefa dirigida a nós como mordomos da vida qie pertence a Ele.
Liberdade para com o mundo (outros):
Podemos ser obrigados a sofrer como Cristo, mas não devemos ter medo do mundo, que pode matar o corpo, mas não pode matar a alma (Mt 10:28). Temos verdadeira liberdade porque estamos nas mãos de Deus. Ele contou os cabelos da nossa cabeça (Lc 12.7). Como seus servos, podemos cumprir nosso dever, mas não precisamos nos preocupar como se o destino do mundo dependesse de nossas ações. A confiança em Deus nos liberta de ter que calcular e determinar tudo por nós mesmos.
Baseados em que Deus quer trabalhar através de nossas fraquezas (1 Coríntios 2:1-5), e se comprometeu a responder nossas orações liberalmente, como seus filhos, somos livres para trabalhar sem pressão, sem medo, sem complexos de superioridade ou inferioridade. Não estamos sozinhos e não dependemos de nossas boas obras para ganhar um lugar no céu. É o próprio Filho de Deus reúne, protege e preserva a igreja.
Liberdade e abertura para a Natureza:
A criação de Deus está aberta diante de nós. Porque Cristo é o Senhor, não precisamos temer a natureza como uma força malévola (mesmo que a natureza caída não seja totalmente como Deus pretendia). A criação também não é um sistema que funciona por si só. As leis mecanicistas de causa e efeito podem descrever como o mundo funciona, mas não chegam a tocar sua realidade mais profunda. Deus está ativo nele (Dt 27-30), razão pela qual é significativo orar por bênçãos e agradecer antes de comer, ou ter uma celebração de aniversário ou de gratidão. Não podemos explicar todas as colheitas abundantes ou desastres naturais, mas isso não significa que tudo acontece por acaso. Como Jó (Jó 40:6), alcançamos os limites da compreensão humana e ficamos maravilhados com a sabedoria de Deus na natureza, mas não precisamos ver a natureza como uma prisão que frustra nossos planos. Isso só acontece quando fazemos exigências que vão contra sua ordem criada, suas normas estruturais.
Rookmaaker argumenta que, por causa dessas quatro liberdades, podemos reconhecer que a criação de Deus é o ambiente que ele nos deu para habitar. Estamos em casa aqui. A alienação é desnecessária. O contato com a realidade em um nível profundo faz parte da vida do cristão. Devemos entrar na realidade, não tentar escapar dela (escapismo). A fuga da realidade é uma marca do misticismo oriental e clássico, não do cristianismo.
Ao mesmo tempo, Rookmaaker reconhece que esta liberdade é limitada pela maldição (Rm 8.18-23) e também pelo pecado. Por causa da Queda, a natureza não é totalmente como Deus pretendia. Mas a maldição não tem a última palavra. Há promessa de renovação final.
Libertinagem Mundana
Finalmente, e mais significativamente, contra essa visão, Rookmaaker vê a perspectiva do incrédulo moderno: a busca da liberdade autônoma com sua alienação, frustração, a sensação de aprisionamento na própria existência, da qual somos libertados apenas pelo sangue de Cristo. A busca contínua de uma redenção pela arte mas que só pode ser encontrada em Cristo. Uma chamada de autoglorificação que leva a um desespero ao ver que nada encontrou .
Assim como a perspectiva (cosmovisão) do incrédulo está incorporada em sua arte, assim deve ser para o cristão. A liberdade de um cristão em Cristo deve simplesmente permear como ele vê toda a realidade, incluindo todo o espectro da experiência humana.
Além da questão do exercício da verdadeira liberdade em amor, é necessário o talento e a técnica relativos de qualquer artista para incorporar efetivamente essa visão dentro de sua arte, de maneiras que tenham integridade artística e o cultivo da sabedoria cristã, uma vez que esta informa a arte.
Concluindo
Na medida em que a arte é fundamentada e informada por uma visão cristã da vida, tal arte contribuirá e evocará uma visão saudável da vida, que desafia a injustiça, lamenta o mal, louva o bem e assim por diante.
Cristo morreu para nos tornar verdadeiramente humanos, para endireitar os tortos, para nos restaurar para alcançar nosso potencial humano dado por Deus. Nesse sentido, podemos afirmar o bem como inerentemente bom, algo que pode ser reconhecido como tal por todas as pessoas. Assim, uma visão cristã da vida provavelmente compartilhará muito com outros, de outras convicções. As diferenças serão maiores, quanto maiores forem as diferenças na perspectiva da vida, e aparecerão mais agudamente nos pontos de divergência.
A arte de um cristão não precisa necessariamente se declarar cristã, nem deve tirar seu mérito, enquanto arte, de tal identificação. Pelo contrário, sua virtude reside em sua integridade, como visão artística sábia, e em termos de sua contribuição construtiva para o florescimento humano. O mais importante não é se foi ou não recebida como cristã, mas sim que é recebida em seus méritos inerentes, trazendo dentro de si a fé agindo como fermento para o pão da arte.
A conscientização e busca pela liberdade cristã, realmente faz a diferença, de muitas maneiras sutis. Essa diferença, por mais sutil e difícil de identificar e isolar, que podemos esperar encontrar na arte de um cristão. Veja que usamos o termo adequado, “a arte de um cristão”, em vez de “arte cristã”.
Assim como não se pode ver o fermento no pão, mas o pão é enriquecido pelo fermento, assim a visão amadurecida de um cristão pode fermentar sua visão artística, afetando o impulso, o tom e o toque do todo. Isso merece ser nutrido conscientemente, como uma qualidade da arte para a qual sempre se deve lutar. Assim, a arte de um cristão pode funcionar como um fermento levedante dentro da estrutura dos discursos atuais da arte (Mt 13.33). Um artista cristão faria bem em exibir menos um rótulo conscientemente cristão em sua arte. Em vez disso, os artistas cristãos poderiam se concentrar em nutrir sua visão e arte das maneiras mais eficazes que puderem encontrar para envolver a cultura circundante ou aquele segmento dela com o qual podem se relacionar mais efetivamente.
Se cada um for fiel em cultivar seu conjunto único de dons, grandes ou pequenos, buscando desenvolver a técnica, nutrir a inteligência artística e o florescimento humano, veremos talvez veremos uma medida de fermento cristão fermentando o pão do mundo da arte secular de hoje, pulsando tanto na perspectiva do artista cristão em seu contato pessoal com o mundo e o mundo da arte, quanto na perspectiva da expressão artística que parte da vida congregacional, impactando os membros , congregados, domésticos da fé e até os confins da terra.
Texto produzido com base no texto de Rookmaaker para reflexão no primeiro culto do ministério de artes do Aprisco (MAAP) e do ministério de louvor , em março de 2022.
Referência:
H.R. Rookmaaker, The Creative Gift: Essays on Art and the Christian Life, Westchester, Illinois: Cornerstone Books, 1981
Para refletir

Na noite de 5 de janeiro de 2022 início de nossas férias, recebemos essa dica de filme pelo Instagram de nosso mano Luiz Sayão.
Inacreditável o impacto que gerou em nós! Deixarei aqui o trailer pra você ver. Era disponível nas principais plataformas.

“Porque um filho nasceu — para o nosso bem!
Um filho foi dado de presente — a nós!
Ele vai assumir
o governo do mundo.
Seu nome será: Conselheiro Maravilhoso,
Deus Forte,
Pai Eterno,
Príncipe de Bênção Plena.
A autoridade de seu governo vai se expandir,
e não haverá limites para a restauração que ele irá promover.
Ele governará com base no trono histórico de Davi,
no reino prometido.
O reino será estabelecido firmemente
e se manterá
Por meio de justiça e vida íntegra;
começa agora e durará para sempre.
O zelo do Senhor dos Exércitos de Anjos
fará tudo isso.” Isaías 9.6-7

Gilbert Keith Chesterton
Capítulo do livro The Thing (A Coisa), publicado em 1929.
Traduzido por Antonio Emilio Angueth de Araujo
Este texto foi cedido generosamente pelo blog do Angueth
Aventurei-me muito imprudentemente a escrever sobre o Espírito de Natal; e o assunto apresenta uma dificuldade preliminar sobre a qual devo ser franco. É curioso ver atualmente as pessoas falarem sobre “o espírito” de uma coisa. Há, por exemplo, um tipo particular de pedante que está sempre nos dando lição de moral a respeito os espírito do verdadeiro cristianismo. Tanto quanto posso compreender, ele diz o exato oposto do que ele pretende. Ele explica que devemos usar os nomes “cristão”, “cristianismo”, etc., para algo que possui o espírito que especialmente não é cristão; algo que é um tipo de combinação de otimismo infundado de um ateu americano com pacifismo de um hindu moderado. Da mesma forma, lemos muito sobre o Espírito de Natal no moderno jornalismo e mercantilismo; mas isto é um oposto do mesmo tipo. Longe de preservar a essência sem a aparência, preserva-se a aparência onde não pode haver a essência. É algo similar a tomar duas substâncias materiais, como o pinheiro e as bolas de natal, e espalhá-los por todos os enormes e frios hotéis cosmopolitas ou em torno de colunas dóricas de clubes impessoais repletos de cansados, cínicos e velhos cavalheiros; ou em qualquer outro lugar onde o real espírito de Natal tem a menor chance de estar. Mas há também outro modo em que a complexidade comercial moderna devora o coração de uma coisa, enquanto preserva sua casca pintada. E este é o sistema assaz elaborado de dependência da compra e venda, e, assim, do barulho e confusão; e da real desatenção com as novas coisas que poderiam ser feitas ao modo dos antigos Natais.
Normalmente, se tudo fosse normal nos dias de hoje, seria um truísmo dizer que o Natal foi um festival familiar. Mas é agora possível (como tive a sorte ou má sorte de descobrir) ganhar a reputação de paradoxal por simplesmente afirmar que truísmos são verdadeiros. Neste caso, claro, a razão, a única razoável razão, foi religiosa. Tinha a ver com uma família feliz porque era consagrada à Sagrada Família. Mas é perfeitamente verdade que muitos homens viram o fato sem especialmente sentirem a razão. Quando dizemos que a raiz foi religiosa, não queremos dizer que Sam Weller estava concentrado em valores teológicos quando disse a Fat Boy para “por um pouco de Natal” em algum objeto, provavelmente comestível. Não queremos dizer que Fat Boy teve um êxtase de contemplação mística, como um monge ao ter uma visão. Não queremos dizer que Bob Cratchit defendia o ponche ao dizer que estava apenas observando o vinho quando este era amarelo; ou que Tiny Tim citou Timothy. Apenas queremos dizer que eles, incluindo o autor, teriam confessado humilde e entusiasticamente que havia alguém muito anterior ao Sr. Scrooge, que poderia ser considerado o Fundador da Festa. Mas, de qualquer forma, qualquer que seja a razão, todos teriam concordado sobre o resultado. A festa do Sr. Wardle centrava-se na família do Sr. Wardle; e, ainda assim, porque as românticas sombras do Sr. Winkle e do Sr. Snodgrass ameaçavam a dividi-la para a formação de outras famílias.[1]
O período natalino é doméstico; e por esta razão a maioria das pessoas se preparam para ele apertando-se em ônibus, esperando em filas, correndo pelos metrôs, comprimindo-se em casas de chá, e imaginando quando ou se vão chegar em casa algum dia. Não sei se alguns não desaparecem para sempre na seção de brinquedos ou simplesmente se deitam e morrem nas casas de chá; mas pelas suas aparências, isto é muito possível. Exatamente antes do grande festival do lar, toda a população parece ter se tornado desabrigada. É o supremo triunfo da civilização industrial que, nas enormes cidades que parecem ter casas em excesso, há uma desesperada falta de moradia. Muito tempo atrás, grande número de nossos pobres se tornaram nômades. Nós até confessamos o fato; pois falamos deles como árabes das ruas. Mas essa instituição doméstica, na sua presente fase irônica, foi além de tal anormalidade normal. A festa da família transformou tanto o rico quanto o pobre em vagabundos. Eles estão tão espalhados no confuso labirinto de nosso tráfego e de nosso comércio, que não podem, algumas vezes, sequer chegar a uma casa de chá; seria indelicado, claro, mencionar uma taverna. Eles têm dificuldade em se aglomerar em seus hotéis, quanto mais em se separar e chegar a suas casas. Tenho em mente o contrário da irreverência quando digo que o único ponto de semelhança entre eles e a família natalina arquetípica é que não há espaço para eles na estalagem.
Ora, o Natal é feito de um belo e intencional paradoxo; que o nascimento do desabrigado deve ser comemorado em todos os lares. Mas o outro tipo de paradoxo não é intencional e não é certamente belo. É mal o suficiente para que não possamos desnudar a tragédia da pobreza. É suficiente mal que o nascimento do desabrigado, celebrado no lar e no altar, deva às vezes coincidir com a morte de desabrigados em asilos e favelas. Mas não precisamos regozijar neste desassossego universal que atinge ricos e pobres igualmente; e me parece que nesta questão precisamos de uma reforma do moderno Natal.
Não emitirei outro brilho de paradoxo ao observar que o Natal ocorre no inverno.[2] Isto é, ele não é somente a festa dedicada à domesticidade, mas é colocada deliberadamente sob condições em que é muito mais desconfortável correr por aí do que ficar em casa. Mas sob as complicadas condições das modernas convenções e conveniências, surge este mais prático e mais desagradável tipo de paradoxo. As pessoas têm de correr para lá e para cá por umas poucas semanas, mesmo que seja para ficarem em casa por umas poucas horas. A velha e saudável idéia de tais festivais de inverno era esta: que as pessoas estando fechadas e sitiadas pelo clima se voltavam para seus próprios recursos; ou, em outras palavras, tinham a oportunidade de mostrar se havia algo em seu interior. Não é seguro que a reputação de nossos mais modernos e elegantes caça-prazeres sobreviveria ao teste. Algumas terríveis revelações seriam feitas de algumas figuras favoritas da sociedade, se elas fossem isoladas do poder da máquina e do dinheiro. Elas estão muito acostumadas a ter tudo nas mãos; e mesmo quando vão aos mais recentes bailes dançantes americanos, parece que só os músicos negros dançam. De qualquer forma, para a média da saudável humanidade acredito que este isolamento de todas estas conexões mecânicas seria um alento e um despertar. No presente, elas são sempre acusadas de meramente se divertirem; mas elas não estão fazendo algo tão nobre ou compatível à sua dignidade humana. Elas, em sua maioria, já não podem se divertir; estão acostumadas demais de que outros as divirtam.
O Natal deve ser criativo. Dizem-nos, mesmo os que o prezam mais, que ele é principalmente precioso para preservar antigos costumes e antiquados jogos. Ele é realmente valioso para ambos estes admiráveis propósitos. Mas no sentido a que estou me referindo, pode ser novamente possível torcer a verdade. Não é que o Natal real deva criar coisas antigas, mas coisas novas. Ele poderia, por exemplo, criar novos jogos, se as pessoas fossem realmente levadas a inventar seus próprios jogos. A maioria dos antigos jogos começava com o uso de ferramentas comuns ou peças do mobiliário. Assim, as próprias regras do tênis se baseiam na estrutura do antigo pátio de estalagem. Assim, acredita-se, as estacas do cricket foram originalmente somente as três pernas do tamborete de tirador de leite. Ora, poderíamos inventar novas coisas desse tipo, se lembrássemos quem é a mãe da invenção. Quão prazeroso seria começar um jogo em que marcássemos ponto por acertar o porta-guarda-chuva ou o carrinho porta-refeição, ou mesmo o hospedeiro ou a hospedeira; claro, com um projétil de material leve e macio. As crianças que têm sorte suficiente de ficarem sozinhas no berço inventam não somente jogos completos, mas dramas e histórias de vida completos; elas inventam línguas secretas; conduzem laboriosamente revistas de família. Este é o tipo de espírito criativo que queremos no mundo moderno; queremos tanto no sentido de desejar quanto no sentido de sentir a falta. Se o Natal pudesse se tornar mais doméstico, creio que haveria um vasto aumento do real espírito de Natal; do espírito da Criança. Mas entregando-nos a este sonho, devemos, uma vez mais, inverter a convenção corrente em uma espécie de paradoxo. É verdade, em certo sentido, que o Natal é o tempo em que as portas devam ser abertas. Mas eu mandaria fechar as portas no Natal, ou pelo menos um pouco antes do Natal; e então o mundo veria do que somos capazes.
Não posso deixar de lembrar, com um certo sorriso, que numa página anterior e mais controversa deste livro eu mencionei uma senhora que estremeceu com a idéia das coisas perpetradas por mim e pelos de minha religião por trás das portas. Mas minha memória está suavizada pela distância e pelo assunto presente, e sinto o oposto de uma controvérsia. Espero que aquela senhora, e todo o seu modo de pensar, tenha também a sabedoria de fechar suas portas; e, assim, que ela descubra que somente quando todas as portas estão fechadas é que a melhor coisa será encontrada lá dentro. Se eles forem puritanos, que professam uma religião baseada apenas na Bíblica, que eles sejam, uma vez, uma Família da Bíblia. Se eles forem pagãos, que não aceitam nada exceto a festa de inverno, que eles sejam, pelo menos, uma família em festa. A discordância ou desconforto de que os modernos críticos reclamam, não são devidos a que o fogo místico ainda queima, mas que ele já esfriou. É porque os frios fragmentos de uma coisa antigamente viva são desajeitadamente agrupados. Brinquedos de Natal estão dançando sem harmonia perante tios graves e pagãos que prefeririam estar jogando golfe. Mas isto não altera o fato de que eles poderiam se tornar mais brilhantes e mais inteligentes se soubessem como brincar com os brinquedos; e eles são muito aborrecidos com o golfe. Seu tédio é apenas o último produto mortal do processo mecânico dos esportes organizados e profissionais, naquele rígido mundo de rotina fora de casa. Quando eram crianças, por trás das portas da casa, é provável que quase nenhum deles tivesse sonhos acordados e dramas não escritos que pertencessem a eles como Hamlet pertenceu a Shakespeare ou Pickwick a Dickens. Quão mais excitante seria se Tio Henry, ao invés de descrever em detalhes todas as tacadas com que ele se livrou do banco de areia, dissesse francamente que ele estivera numa viagem ao fim do mundo e capturara a Grande Serpente do Mar. Quão mais intelectualmente verdadeira seria a conversa de Tio William se, ao invés de nos dizer de quanto ele reduziu seu handcap, ele pudesse ainda dizer com convicção que ele era o Rei das Ilhas Canguru, ou o Chefe dos Pele-Vermelhas. Essas coisas, saídas desde dentro, eram quase todas puro espírito humano; e não é normal que a inspiração delas deva ser tão completamente esmagada por coisas desde fora. Que não se suponha por um momento que eu também esteja dentre os tiranos da terra, que imporia meus próprios gostos, ou obrigaria todas as crianças a jogar meus próprios jogos. Não desrespeito o jogo de golfe; é um jogo admirável. Eu já o joguei; ou melhor, eu já brinquei com ele, o que é geralmente considerado o exato oposto de jogar. Deixemos evidentemente que os praticantes do golfe joguem golfe e mesmo os organizadores o organizem, se sua única concepção de um órgão é algo como um realejo.[3] Deixem-nos jogar golfe dia após dia; deixem-nos jogar golfe por trezentos e sessenta e quatro dias, e noites também, com bolas banhadas em tinta luminosa, a fim de serem vistas no escuro. Mas que exista uma noite que as coisas brilhem desde dentro: e um dia que os homens procurem por tudo que está enterrado em si mesmos, e descubram – no lugar onde ele está realmente escondido, por trás de portões trancados e janelas cerradas, por trás de portas três vezes trancadas e aferrolhadas – o espírito de liberdade.
[1] Sam Weller, Fat Boy, Wardle, Winkle e Snodgrass são personagens de Dickens nos Pickwicky Papers e Bob Cratchit, Tiny Tim e o Sr. Scrooge em Christmas Carol. (N. do T.)
[2] No hemisfério norte. (N. do T.)
[3] Barrel-organ em inglês. (N. do T.)
Extraído de :
O Espírito de Natal
A primeira é Cordeiro de Deus que tem sido uma música marcante em nossas vidas e na história do Aprisco.
A segunda é Gólgota na voz de nosso mano Edmilson Bazuka. Ambas são muito edificantes.