O dom criativo – Liberdade na arte e a libertinagem mundana

Mateus 13.33 e 26.17-30
Introdução
Todos nós trazemos conosco uma bagagem (olha o Peregrino aí…) , familiar, religiosa e cultural. Todos temos também um background educacional e de vivências profissionais. Esses elementos, combinados ao potencial criativo de cada um, e a interação com o tempo e as circunstâncias compõem aquilo que influenciará as nossa decisões e portanto a arte que produzimos.
Essa arte, vivida na perspectiva congregacional, receberá a direção do serviço cristão, da orientação bíblico-doutrinária da igreja e o fazermos coletivamente ao invés do simples fazer.
Arte – substantivo feminino
– habilidade ou disposição dirigida para a execução de uma finalidade prática ou teórica, realizada de forma consciente, controlada e racional. – conjunto de meios e procedimentos através dos quais é possível a obtenção de finalidades práticas ou a produção de objetos; técnica.
No Aprisco e a relação com a cultura, a instrução são os 3 R’s. Precisamos identificar o que culturalmente precisa ser RECEBIDO, o que precisa ser REJEITADO e o que deve ser REDIMIDO.
Sendo um pouco mais específico sobre o que significa, como cristão e artista, ver e responder ao mundo caído de maneira diferente, usaremos, mesmo que bem superficialmente, a visão de Hans Rookmaaker (1922/1977), escritor holandês que se tornou cristão muito contribuiu para a reflexão da arte cristã. Rookmaaker esboça duas visões de vida contrastantes, uma fundada na rebelião e na permissividade, como se vê na cultura de nosso tempo, e a outra baseada na liberdade que um cristão descobre em Cristo. Creio que podemos usar essa comparação e o conjunto notável de contrastes que Hans utilizou, para ponderar sobre esse tema.
É preciso considerar as várias ameaças à liberdade vindas tanto da igreja, como do estado e e da sociedade. Assim, há uma tarefa duradoura dos cristãos em geral incluindo, é claro, artistas cristãos, de desmascarar pseudo-deuses ou falsos ideais e reabrir a vista para a plenitude da realidade (Cl 2.17), desmascarando o que é falso, apontando para a plenitude da vida e renovação. Nisto consiste o núcleo de sua visão para o chamado de um artista cristão.
Na visão de Rookmaaker, a liberdade que é encontrada em Cristo fornece ao cristão que é um artista um poço de discernimento do qual pode extrair uma visão verdadeira da realidade, que emerge de focalizar cuidadosamente as lentes da sabedoria bíblica no mundo ao nosso redor. Na visão de Rookmaaker, nossa tarefa então, como cristãos, é trabalhar com base na liberdade que conquistamos na redenção de Cristo, procurando maneiras positivas de expressar uma visão verdadeira da realidade, uma realidade maior que a soma da natureza mais o homem. Enquanto uns clamam por arte que projete uma visão do florescimento humano além do princípio da realidade, Rookmaaker nos chama a ver a realidade através dos olhos da fé.
Qual é então a natureza da liberdade que Rookmaaker está descrevendo? Em primeiro lugar, é melhor compreendido em seu contraste entre a permissividade secular e a liberdade cristã, como mencionado acima, que por justaposição ecoa o padrão das consequências das bênçãos e maldições de Deus, conforme recitado por Moisés em Deuteronômio, capítulos 4-8. Mas, mais particularmente, Rookmaaker concentra seu argumento em quatro liberdades críticas: liberdade diante de Deus, liberdade em relação a nós mesmos, liberdade em relação aos outros e liberdade e abertura em relação à natureza.
Liberdade diante de Deus:
Temos “confiança diante de Deus”. “Nós o consideramos um Pai amado, com reverência e temor, e tentamos não entristecê-lo.” Tal é a confiança que temos diante de Deus, por meio de Cristo. Não que possamos reivindicar qualquer coisa com base em nossos próprios méritos, mas a nossa capacidade vem de Deus. Ele nos capacitou para sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do Espírito; pois a letra mata, mas o Espírito vivifica.
2 Coríntios 3:4-6
Liberdade em relação a nós mesmos:
Não precisamos ter medo de ser nós mesmos, pois Cristo nos aceitou como somos, com nossas próprias personalidades. Contrariedade e auto-mutilação não pertencem ao evangelho (Cl 2:16-23). No entanto, a auto-realização também não é o objetivo da pessoa renovada em Cristo, pois a vida é um dom e uma tarefa dirigida a nós como mordomos da vida qie pertence a Ele.
Liberdade para com o mundo (outros):
Podemos ser obrigados a sofrer como Cristo, mas não devemos ter medo do mundo, que pode matar o corpo, mas não pode matar a alma (Mt 10:28). Temos verdadeira liberdade porque estamos nas mãos de Deus. Ele contou os cabelos da nossa cabeça (Lc 12.7). Como seus servos, podemos cumprir nosso dever, mas não precisamos nos preocupar como se o destino do mundo dependesse de nossas ações. A confiança em Deus nos liberta de ter que calcular e determinar tudo por nós mesmos.
Baseados em que Deus quer trabalhar através de nossas fraquezas (1 Coríntios 2:1-5), e se comprometeu a responder nossas orações liberalmente, como seus filhos, somos livres para trabalhar sem pressão, sem medo, sem complexos de superioridade ou inferioridade. Não estamos sozinhos e não dependemos de nossas boas obras para ganhar um lugar no céu. É o próprio Filho de Deus reúne, protege e preserva a igreja.
Liberdade e abertura para a Natureza:
A criação de Deus está aberta diante de nós. Porque Cristo é o Senhor, não precisamos temer a natureza como uma força malévola (mesmo que a natureza caída não seja totalmente como Deus pretendia). A criação também não é um sistema que funciona por si só. As leis mecanicistas de causa e efeito podem descrever como o mundo funciona, mas não chegam a tocar sua realidade mais profunda. Deus está ativo nele (Dt 27-30), razão pela qual é significativo orar por bênçãos e agradecer antes de comer, ou ter uma celebração de aniversário ou de gratidão. Não podemos explicar todas as colheitas abundantes ou desastres naturais, mas isso não significa que tudo acontece por acaso. Como Jó (Jó 40:6), alcançamos os limites da compreensão humana e ficamos maravilhados com a sabedoria de Deus na natureza, mas não precisamos ver a natureza como uma prisão que frustra nossos planos. Isso só acontece quando fazemos exigências que vão contra sua ordem criada, suas normas estruturais.
Rookmaaker argumenta que, por causa dessas quatro liberdades, podemos reconhecer que a criação de Deus é o ambiente que ele nos deu para habitar. Estamos em casa aqui. A alienação é desnecessária. O contato com a realidade em um nível profundo faz parte da vida do cristão. Devemos entrar na realidade, não tentar escapar dela (escapismo). A fuga da realidade é uma marca do misticismo oriental e clássico, não do cristianismo.
Ao mesmo tempo, Rookmaaker reconhece que esta liberdade é limitada pela maldição (Rm 8.18-23) e também pelo pecado. Por causa da Queda, a natureza não é totalmente como Deus pretendia. Mas a maldição não tem a última palavra. Há promessa de renovação final.
Libertinagem Mundana
Finalmente, e mais significativamente, contra essa visão, Rookmaaker vê a perspectiva do incrédulo moderno: a busca da liberdade autônoma com sua alienação, frustração, a sensação de aprisionamento na própria existência, da qual somos libertados apenas pelo sangue de Cristo. A busca contínua de uma redenção pela arte mas que só pode ser encontrada em Cristo. Uma chamada de autoglorificação que leva a um desespero ao ver que nada encontrou .
Assim como a perspectiva (cosmovisão) do incrédulo está incorporada em sua arte, assim deve ser para o cristão. A liberdade de um cristão em Cristo deve simplesmente permear como ele vê toda a realidade, incluindo todo o espectro da experiência humana.
Além da questão do exercício da verdadeira liberdade em amor, é necessário o talento e a técnica relativos de qualquer artista para incorporar efetivamente essa visão dentro de sua arte, de maneiras que tenham integridade artística e o cultivo da sabedoria cristã, uma vez que esta informa a arte.
Concluindo
Na medida em que a arte é fundamentada e informada por uma visão cristã da vida, tal arte contribuirá e evocará uma visão saudável da vida, que desafia a injustiça, lamenta o mal, louva o bem e assim por diante.
Cristo morreu para nos tornar verdadeiramente humanos, para endireitar os tortos, para nos restaurar para alcançar nosso potencial humano dado por Deus. Nesse sentido, podemos afirmar o bem como inerentemente bom, algo que pode ser reconhecido como tal por todas as pessoas. Assim, uma visão cristã da vida provavelmente compartilhará muito com outros, de outras convicções. As diferenças serão maiores, quanto maiores forem as diferenças na perspectiva da vida, e aparecerão mais agudamente nos pontos de divergência.
A arte de um cristão não precisa necessariamente se declarar cristã, nem deve tirar seu mérito, enquanto arte, de tal identificação. Pelo contrário, sua virtude reside em sua integridade, como visão artística sábia, e em termos de sua contribuição construtiva para o florescimento humano. O mais importante não é se foi ou não recebida como cristã, mas sim que é recebida em seus méritos inerentes, trazendo dentro de si a fé agindo como fermento para o pão da arte.
A conscientização e busca pela liberdade cristã, realmente faz a diferença, de muitas maneiras sutis. Essa diferença, por mais sutil e difícil de identificar e isolar, que podemos esperar encontrar na arte de um cristão. Veja que usamos o termo adequado, “a arte de um cristão”, em vez de “arte cristã”.
Assim como não se pode ver o fermento no pão, mas o pão é enriquecido pelo fermento, assim a visão amadurecida de um cristão pode fermentar sua visão artística, afetando o impulso, o tom e o toque do todo. Isso merece ser nutrido conscientemente, como uma qualidade da arte para a qual sempre se deve lutar. Assim, a arte de um cristão pode funcionar como um fermento levedante dentro da estrutura dos discursos atuais da arte (Mt 13.33). Um artista cristão faria bem em exibir menos um rótulo conscientemente cristão em sua arte. Em vez disso, os artistas cristãos poderiam se concentrar em nutrir sua visão e arte das maneiras mais eficazes que puderem encontrar para envolver a cultura circundante ou aquele segmento dela com o qual podem se relacionar mais efetivamente.
Se cada um for fiel em cultivar seu conjunto único de dons, grandes ou pequenos, buscando desenvolver a técnica, nutrir a inteligência artística e o florescimento humano, veremos talvez veremos uma medida de fermento cristão fermentando o pão do mundo da arte secular de hoje, pulsando tanto na perspectiva do artista cristão em seu contato pessoal com o mundo e o mundo da arte, quanto na perspectiva da expressão artística que parte da vida congregacional, impactando os membros , congregados, domésticos da fé e até os confins da terra.
Texto produzido com base no texto de Rookmaaker para reflexão no primeiro culto do ministério de artes do Aprisco (MAAP) e do ministério de louvor , em março de 2022.
Referência:
H.R. Rookmaaker, The Creative Gift: Essays on Art and the Christian Life, Westchester, Illinois: Cornerstone Books, 1981
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