Texto de Marcondes Soares
Sabe, eu nasci e fui criado na periferia do Recife em água fria, meu pai era umbandista.
Um dia meu pai chegou em casa todo ensanguentado, com as mãos tortas para trás, ele fazia muitos movimentos da coreografia que está ai. A entidade que estava nele afirmava ser o “Exu tranca rua”. Ele estava recebendo “coro” ( castigo) Por não ter cumprido uma promessa de entrega de um despacho, ele tinha sido assaltado por uma gangue, quando voltava do trabalho e já retornou pra casa incorporado.
A mãe de santo dele e uma filha de santo vieram resolver “o problema”.
Pra mim , com essas experiências, é muito difícil não associar “Exu” ao demônio.
Embora eu consiga fazer uma distinção entre os contos, a mitologia Afro e as realidades espirituais por trás, como faço na mitologia nórdica, grega e celta.
A incapacidade de fazer essa distinção para uns ( deuses nórdicos ) e não para outros ( deuses afros) é racismo.
Mas a realidade e o confronto com quem está por trás, usando esse nome, não é racismo.
E é muito difícil pra gente simples fazer essas distinção, elas chamam os espíritos incorporados pelos nomes que se apresentam.
Essa também é a experiência de encontro ( confronto) de poderes espirituais de pentecostais na periferia.
O teólogo classe média que não tem contato com essas realidades não entende. O estudante secular de antropologia dos cultos afros brasileiros também não, eles tem um mente secular, eles não tem a “mente mágica” do pentecostal e dos adeptos dos cultos afros.
Pra eles não existem esses poderes e realidades espirituais, mas os adeptos de ambas as religiões (pentecostal e afro), os mais simples, sabem que são realidades espirituais e sabem que quase sempre elas entram em confronto, geralmente quando um adepto visita uma igreja pentecostal ou tenta a conversão, a reação violenta dos espíritos é esperada.
E isso primariamente não tem relação com racismo.
O teólogo de classe média e o cientista social, que fica tentando enquadrar o pentecostal da periferia no crime de racismo, sem levar em conta essas peculiaridades antropológicas, experiência e maneira de ver o mundo, não consegue enxergar além dos seus pressupostos naturalistas.
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